Sem se discutirem os problemas não há soluções razoáveis, muito menos óptimas. Decidir qualquer coisa sem ponderar que não se está só, que não se tem todo o poder, não é admissível em democracia. Não se resolve nenhum facto atacando-o de mito. E não se ganha razão se não se faz o suficiente ou se se faz mal o que há que fazer. Nem que se acusem os sindicatos de pouco activos e intransigentes e os patrões de não formalizarem as últimas cedências. E o Governo fez tudo? Quem ouviu o chefe do Executivo não tem dúvidas: faltou capacidade para convencer os parceiros sociais, sobretudo, os sindicatos. Sobre o assunto, e enquanto criticava as centrais sindicais, Montenegro pediu que se discutisse agora com “profundidade” no Parlamento. Na verdade, o que quis dizer sem o admitir, como é hábito na política, é que a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, vai ter de convencer desta vez os deputados – o que parece não ter conseguido com os representantes dos trabalhadores – das mais-valias da aprovação das alterações reformistas propostas pelo Executivo, pelo menos, para os trabalhadores. E de que a nova legislação não os pretende descartar com mais facilidade dos empresários, mas criar condições para que estes lhes possam aumentar os ordenados. Pode ser que consiga fazê-lo finalmente de forma eficaz, mas será necessário que haja apoio necessário, maioritário, para que o diploma final passe, o que parece difícil. Montenegro estará sempre dependente de Ventura ou de Carneiro que não cederão facilmente, parecendo mais difícil o acordo com o primeiro do que com o segundo. Acredito que Carneiro possa aproximar-se, a atender às declarações que este proferiu há dois ou três dias, se a proposta que o Governo apresentar na Assembleia da República integrar os pontos relativamente aos quais já havia acordo, o que obrigará Maria do Rosário Ramalho a rever o que disse logo que admitiu o fim das negociações com os parceiros sociais. Mesmo assim, será ainda necessário que a rede do crivo do Presidente tenha malha bastante larga, atendendo ao que este já disse pensar sobre o assunto. Afinal, não houve acordo em sede de concertação social e não quererá expôr-se, logo numa das primeiras apreciações, à incoerência. Se o que está em causa fosse um mito, seria tudo muito mais fácil.
2. Há demasiado tempo que mais de milhão e meio de Portugueses se sentem desprotegidos pelo Sistema Nacional de Saúde (SNS), não por deixarem de ser atendidos numa qualquer urgência, mas por não poderem ser acompanhados regularmente como a maioria por um Médico de proximidade, o de Família. A Associação Portuguesa dos Médicos de Família Independentes (APMF) confirma e diz mais: tais cidadãos, ao não serem seguidos continuadamente, deixam de beneficiar de vigilância relativamente a eventuais doenças crónicas e a tratamento atempado. Parece-me evidente, mas Ana Paula Martins, a Ministra da Saúde, considera que admitir isso uma falha do SNS não é aceitável, mas um mito, como se os argumentos apresentados não passassem de ilusão e mentira. A reacção da responsável pela pasta não tem aceite falhas sempre que lhe mexem na ferida, alegando em sua defesa de que se trata de um mito “sistematicamente repetido”. A verdade é que esta falha concreta não tem sido colmatada, apesar do tempo decorrido desde que o primeiro governo de Montenegro tomou posse, não tendo havido ainda melhoria que se sentisse. Claro que o SNS tem falhado reiteradamente e com isto não estou a criticar os serviços prestados, mas os serviços que não são prestados. Não há médicos suficientes no SNS? O que foi feito para resolver o problema? O que pensa o Governo fazer para resolver a situação? Quando? É para já, para logo, ou terá uma solução diferente? De quanto tempo mais necessitará? É muito importante para as Famílias prejudicadas com o problema saber quando o terão resolvido, sendo certo que quererão que seja célere a solução. A realidade não desmente.