Há muitas pessoas – demasiadas até – que, por uma estranha economia da alma, toma o grosseiro por coragem, ou a honestidade e a falta de educação por verdade.
Dizem tudo, orgulham-se de tudo dizer, e imaginam que essa torrente de palavras sem travão, os torna mais autênticos do que os demais quando, muitas vezes, apenas revela uma pobreza interior que nem o disfarce da franqueza consegue engrandecer. A sua sinceridade é, afinal, uma vaidade ou sobranceria mal-escondida.
Quando alguém deita para trás das costas o impacto emocional do que verbaliza, não estamos a falar mais de honestidade, e sim de malvadez, falta de empatia ou, se não intencional, de irreflexão tonta. A intenção por detrás das palavras importa.
Os “sinceros” desta vida, tentam diminuir gratuitamente o outro sob a capa da franqueza, muitas vezes, ou porque nada têm para nos dar, ou porque não gostam do “tamanho” do outro e não percebem que seria mais importante crescer eles mesmos, ao invés de rebaixarem o outro para se equivalerem. É como o típico invejoso que nada faz para construir, mas tudo faz para que os outros nada construam ou nada tenham.
Nós não temos de ser o saco do lixo do outro, do despejo de frustrações, raivas ou meras faltas de educação.
Eles dizem: eu digo tudo, sou verdadeiro, quem não gostar que não goste!
O problema desta indelicadeza genética ou adquirida por baixo dum qualquer vão de escada, é quando se lhes aplica a “lei do retorno”, e são alvo da sinceridade que se gabam, passando os outros a malcriados. Isto ao nível psicológico, nem Freud.
Aí, a verdade dos outros na volta dói muito!
Os filtros não são falsidade, é o que nos distingue, é saber que as palavras podem ferir, tudo sem qualquer necessidade apenas em prol da nossa satisfação primária.
É, ao contrário de ter “o coração na boca”, ter também o cérebro!
Já o dizem alguns: “Se não tens nada de bom para dizer, não digas nada".
Convém esclarecer, desde logo, que a delicadeza não é mentira, nem o silêncio é cobardia. Há quem se cale por prudência, por respeito, por inteligência do momento, e não por incompreensão ou ausência de opinião.
As pessoas confundem a boa educação, a repulsa do conflito, com falta de entendimento ou distração. A mais das vezes a polidez é muitas vezes o resguardo do conflito.
O mundo seria muito mais insuportável se cada pensamento irrefletido ganhasse imediatamente a dignidade de frase. Nem tudo o que se pensa merece ser dito; nem tudo o que se diz merece ser proclamado como virtude.
Os chamados “sem filtros”, gostam de se apresentar como seres superiores, livres de convenções, imunes ao artifício social. Mas o que frequentemente exibem não é liberdade, é descuido. Não é coragem, é impaciência. Não é verdade, é impulso. E o impulso, sendo bruto, raramente sabe distinguir entre o que esclarece e o que fere, entre o que corrige e o que humilha. Há pessoas que falam como quem deita pedras a um telhado de vidro e depois se admiram do ruído.
A nossa época favorece esta espécie de brutalidade com verniz de autenticidade. Basta dizer “eu sou assim” para que a responsabilidade moral seja, por milagre, suspensa. Como se o carácter fosse um destino e não uma disciplina. Como se a educação fosse um adorno dispensável e não uma forma superior de convivência. O grave não é haver quem pense sem ponderar; o grave é haver quem se orgulhe disso, como se a falta de contenção merecesse uma medalha olímpica.
Há verdades que iluminam e há verdades que apenas queimam. Quem escolhe estas em vez daquelas, deixa-se seduzir pelo fulgor destrutivo do instante egoísta, desprezando a claridade serena da benevolência.