«E se mudar o mundo – questiona Yuval Noah Harari – tiver menos a ver com o poder e mais com as histórias em que as pessoas acreditam?»
Há quem tenha por objetivo imediato, mais do que atrair multidões, manipular as consciências. A manipulação já é uma forma de poder em ação.
Não importa se o discurso é verdadeiro ou falso; o que parece importar é se as pessoas acreditam independentemente da veracidade ou da falsidade.
Para tal, basta que uma história seja apelativa, fazer «scroll» e uma vaga emerge, cresce e acaba por nos rebocar.
A comunicação deveria corresponder ao que está na realidade; até porque a realidade não se submete ao que está na comunicação. Nem sempre acontece, porém.
Daí os constantes exercícios de «fact-checking» (verificação de factos) para apurar a autenticidade de declarações, notícias e conteúdos. As «deepfakes» (vídeos ou áudios manobrados por inteligência artificial) não são fáceis de escrutinar. E não falta quem dê mais crédito ao virtual do que ao real.
Marco Martins está coberto de razão quando reconhece que «a verdade é uma palavra muito difícil».
Muito difícil porque exposta à contrafação e à deturpação: tanto pode designar o que existe como o que inexiste, o que acontece como o me apetece.
A tendência é para deixar de acolher a verdade, para passar a construir uma verdade, a fabricar muitas verdades. Portanto, se acredita em tudo o que lhe mostram, tenha cuidado. Pode estar a ser ilusionado. Hipnotizado?
Nem o mais óbvio está protegido. Pouco faltará – Emanuelle Hérin alerta – para que 2+2=4 tresande a «supremacia patriarcal branca». Estamos a caminho da «hipnosfera»?
De uma forma porventura não deliberada, até a religião corre o risco de ser contagiada. André Perrin sinaliza uma espécie de migração de muitos para uma «Igreja sem Deus» e para um «Cristianismo sem Cristo», sem «redentor nem redenção».
Não falta quem subordine o Evangelho aos epifenómenos passageiros em vez de procurar iluminar a obscuridade desta hora com a luz acendida por Jesus.
Ninguém está completamente abrigado do assédio do absurdo.
Samuel Fitoussi: «Diga que a Terra é plana e parecerá um louco. Mas junte vinte cientistas que pensem que a Terra é plana e crie um departamento numa universidade». Até «poderão publicar artigos, fazer exames e entregar diplomas».
Agora imagine que não são vinte cientistas, mas vários milhares e que passam a constituir a maioria numa universidade.
A «verdade» seria que a Terra é plana e, consequentemente, a defesa de que a Terra é redonda ficaria arrumada na secção das «fake news».
O que ocorre no domínio do conhecimento repercute-se nos relacionamentos humanos.
Qualquer relato sobre uma pessoa – sobretudo se desfavorável ou mesmo difamatório – tende a ser validado.
Por mais que se proteste inocência, a honra fica maculada aos olhos de uma ruidosa maioria.
Iremos a tempo de demolir esta asfixiante tirania?