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Variante para não variar

Em janeiro deste ano, o presidente da Câmara Municipal de Braga, João Rodrigues, anunciou que daria prioridade máxima à implementação de uma nova circular externa, incluindo a concretização da variante do Cávado. Com esta decisão, o principal prejudicado foi o BRT, cuja última linha prevista foi adiada por tempo indeterminado. Depois de 4 linhas, passamos a ter zero.

O sinal político é claro.


 

Considerando o horizonte deste mandato, destacam-se duas grandes intervenções na mobilidade da cidade: o nó de Ínfias e a nova circular externa. Dado o tempo que estas obras demorarão a ser concluídas, dificilmente se vislumbrará outro projeto estruturante nos próximos 4 anos. A opção deste executivo é clara e resume-se, assim, a mais do mesmo: mais infraestrutura rodoviária, mais espaço para o automóvel, mais dependência do carro.

O problema não está apenas na insistência neste modelo. Está também na ausência de fundamentação clara. Foi referido pelo presidente da câmara que cerca de 80% do tráfego de atravessamento poderia ser desviado com a nova circular. Mas quanto representa esse tráfego no total da circulação na cidade? Joaquim Barbosa, deputado do PSD, mencionou, para defender a circular, que 60% do tráfego proveniente dos concelhos a norte de Braga não necessita de atravessar a cidade. Ainda assim, a questão essencial permanece: quantos veículos, em termos absolutos, se pretende desviar?

Se o tráfego de atravessamento representar ainda 13% do total, como indica um estudo de 2015, então desviar 80% desse valor significaria reduzir apenas cerca de 10% do tráfego global. Isto deixa praticamente intocado o problema central: as deslocações internas ao concelho, que são as que mais pressionam o sistema viário urbano.

Perante esta incerteza, o risco é evidente. Ao apostar em grandes infraestruturas rodoviárias sem um impacto claramente demonstrado, a cidade reforça um modelo que já mostrou os seus limites: mais dependência do automóvel, mais congestionamento e menos alternativas.

Braga arrisca, assim, investir dezenas de milhões de euros sem resolver os seus problemas estruturais de mobilidade. Os bracarenses continuarão dependentes do automóvel, vulneráveis às oscilações do preço dos combustíveis e presos em congestionamentos quotidianos.

Quando esse cenário se confirmar, não será por falta de aviso.

Rafael Remondes

Rafael Remondes

28 março 2026