twitter

Para além das regras

O fair-play, tantas vezes evocado e nem sempre visto, continua a ser um dos pilares mais nobres do desporto. Num tempo em que a vitória parece justificar quase tudo, importa recordar que o verdadeiro valor da competição não reside apenas no resultado final, mas na forma como se joga o jogo. 

Cumprir as regras, respeitar adversários e agir com integridade são princípios que transcendem qualquer modalidade e que ajudam a formar não apenas melhores atletas, mas melhores pessoas. No desenvolvimento desta ideia, é impossível ignorar o papel central das regras. Elas existem para garantir igualdade de condições, justiça e segurança. Sem regras, o desporto seria um caos; com regras ignoradas, transforma-se em algo desvirtuado. No entanto, cumprir regras não deve ser visto como uma obrigação imposta de fora, mas como um compromisso interno com a ética e com o próprio desenvolvimento das pessoas envolvidas.

O conceito do fair-play nasce precisamente dessa consciência: jogar limpo (mesmo quando ninguém está a ver), reconhecer o mérito do adversário com sensatez, aceitar a derrota com dignidade e a vitória com humildade. Há, na história, um rol de situações exemplares ou gestos, embora simples, têm um impacto profundo, pois lembram-nos que o desporto pode e deve ser um espaço de respeito, solidariedade e humanidade. 

Posto isto, o que aconteceu no último jogo do Alverca - Sporting, no campeonato de futebol, contraria esta premissa, desta vez, pelo próprio árbitro. Passo a expor: um atleta caiu dentro da grande área, o árbitro (da Associação de Futebol de Braga) marcou penalti e o mesmo jogador afirma, perentoriamente, que não foi tocado e que por isso não há motivo para grande penalidade. Até aqui, impecável. No entanto, o árbitro mostra cartão amarelo ao jogador, justificando ter sido “simulação”. Seria simulação se tivesse tentado usufruir de qualquer vantagem. Esta decisão do árbitro é no mínimo ridícula, inusitada e sem qualquer bom senso. Em vez de “valorizar”, até como exemplo para as novas gerações, advertiu o jogador. Qualquer ponto do livro de regras está sempre subjugado à mais importante de todas: “A regra do bom senso!” 

Não há dúvida que a promoção do fair-play e o cumprimento de regras são uma responsabilidade coletiva. Clubes, treinadores, dirigentes, árbitros e adeptos têm um papel essencial na construção da cultura desportiva… com mais ética. Porém, mais do que punir comportamentos incorretos, é fundamental valorizar, incentivar e divulgar atitudes positivas. Pelo que, este árbitro agiu precisamente no campo contrário, menosprezou o positivo e um protagonizou um manifesto incumprimento de bom senso… apesar do que “diz a regra”.

O fair-play não é apenas um ideal “romântico”, mas uma necessidade concreta para preservar a essência do desporto e reforçar valores fundamentais. “Jogar limpo” é, afinal, a grande vitória que qualquer um pode alcançar… mesmo para os árbitros.



 



 

Carlos Dias

Carlos Dias

27 março 2026