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Turbulência externa e peregrinação interior

Precisamos de um manual com instruções anticrise, reciclado. Nos últimos anos, temos cirandado de crise em crise, por cá, em Portugal, e no mundo. Neste milénio, fomos envolvidos pela crise do subprime 2008, que da América se estendeu a todo o mundo, e em particular na geografia do capitalismo. De muito lusa feição, vivenciamos poucos anos depois o asfixiante aperto do tempo da Troika, entre 2011-14. As classes médias portuguesas, muito dependentes do suporte do Estado (através da remuneração de funcionários ou reformados/pensionistas), evaporaram-se então. Agora, em Portugal, catalogamos como classes médias grupos de rendimento que mais não são do que classes baixas ligeiramente inflacionadas. As vendas a crédito e por prazos generosos, a multiplicação de ocupações remuneradas (e de outras que sub-repticiamente se furtam ao fisco) permitem, ainda assim, alimentar o consumo e, logo, animar a economia. Depois veio a Pandemia de 2020-21, que ultrapassamos com surpreendente ligeireza. Quase de seguida, sobreveio a Guerra na Ucrânia, ainda em curso, que tem exigido, como é devido, recursos a todos os países da UE para suportar esta nação europeia, alvo da ira e da megalomania russas.

E agora, o intempestivo Donald Trump, antigo aspirante a prémio Nobel da Paz, na companhia de Israel, através de uma ação militar punitiva e alegadamente preventiva dirigida contra o Irão semeou a instabilidade no Médio Oriente, aqui ao pé, poderemos dizer. O regime iraniano no último meio século tem soltado sistemáticas proclamações apocalípticas dirigidas contra Israel, ameaçando varrer este país do mapa, o que originou justificado temor entre os visados. Houve, porém, negociações e um acordo para a contenção da ameaça iraniana (nuclear), posteriormente rasgado por Donald Trump ao tempo do seu primeiro mandato presidencial (2016-20). Durante os próximos dias, está prometido pelos EUA a suspensão de exorbitantes ataques que estariam planeados contra o Irão (instalações energéticas), sendo que este último país, que vem alardeando uma capacidade de resistência certamente superior à estimada pela coligação Israel/EUA, promete retaliar com ataques que provocarão o caos nos países árabes vizinhos, grandes produtores de gás e petróleo. É provável que o Irão, mais debilitado militarmente e com diversos líderes políticos e militares sucessivamente eliminados pela coligação Israel/EUA nos últimos dias, esteja a fazer algum bluff nestes “jogos de guerra”, mas só o futuro próximo o clarificará. O perfil milenarista e salvífico das lideranças iranianas justifica os mais sérios temores. A instabilidade cerca a Europa de novo. O fantasma da crise energética da década de 70 (embargo e choque petrolífero de 1973, em particular) emerge e preocupa.

Entretanto, a Europa, temerosa da voracidade expansionista russa, projeta gastar cada vez mais em armamento. E as opiniões públicas e publicadas na Europa condescendem com esta onda armamentista. E quem escreve estas linhas também tem manifestado alguma condescendência perante a reconfiguração em curso nos orçamentos dos diferentes estados da UE, impõe-se dizer. 

Mas o velho dilema “canhões ou manteiga", que Paul Samuelson colocava aos governos na conceção dos seus orçamentos de Estado, subsiste. Com a Europa a gastar mais na defesa/guerra, haverá menos verbas para o famoso “estado social europeu”. Por mais empregos que as indústrias da guerra originem, o enfraquecimento da dinâmica nas áreas da economia ligadas ao consumo ou bem-estar (habitação, saúde, educação, lazer) redundará numa pior qualidade de vida geral, face ao que seria possível num mundo menos virado para as armas. Os salários e as pensões brilharão menos, nem que seja pela impossibilidade de baixar os impostos sobre o rendimento e o consumo.

O tempo que vivemos não configura a emergência de sólidas estações de bonança, todavia devemos manter sempre algum otimismo, sob pena de paralisarmos. Ademais, nos regimes democráticos o povo pode, ciclicamente, realinhar as prioridades governativas. Podemos ainda revisitar a velha asserção de Demócrito que sustentava que “o que importa não são as dificuldades que enfrentamos, mas a forma como reagimos a elas”. E se o mundo exterior se mostra pouco atraente no horizonte próximo, sobra-nos, outrossim, a oportunidade para a peregrinação ou digressão interior na busca de menor inquietação ou de aperfeiçoamento pessoal.

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

28 março 2026