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O verdadeiro problema do trânsito em Braga não é o trânsito

Todos conhecemos as filas intermináveis na Rodovia, em frente ao Braga Parque, na Avenida Central, em Real, em Sequeira. Na rotunda de Infias, na Rua Santa Margarida e em todas as frentes escolares no horário de entrada e saída das escolas. Conhecemos o congestionamento no túnel da estação, na variante de Prado, na Av. 31 de Janeiro, em toda a cidade na hora de ponta de manhã ou da tarde. Mas será que o problema é mesmo o trânsito?

Muitas políticas partem de uma premissa vulgar: há mais trânsito e precisamos de mais capacidade rodoviária. Ou seja, mais vias, mais estradas, mais rotundas, mais túneis, mais viadutos. “One more lane will fix it”. Isto pode até resolver temporariamente, mas rapidamente essa capacidade esgota-se. 

Quando saímos da vulgaridade para o conhecimento, passamos a conhecer um fenómeno que acontece em todo o mundo, chama-se induced mobility, traduzindo, mobilidade induzida. Neste caso, quando aumentam a capacidade rodoviária para os carros, acabam por ter mais carros. Porque induzem essa mobilidade. E com isso agravam o problema, aumentam o trânsito.

Então se o problema não é o trânsito, qual é? É a política de mobilidade induzida que temos vindo a aplicar. Induzimos apenas o uso do carro, e depois queixamo-nos que as pessoas só usam o carro.

Se o uso do carro for sempre mais rápido, mais cómodo, mais previsível, então, obviamente, as pessoas vão continuar a escolher esse modo de transporte. Muitas deslocações de carro são inevitáveis, porque temos uma pequena parte das deslocações em que as pessoas dependem efetivamente dele: trabalho na logística ou trabalho fora do concelho por exemplo. Outras dependem dele porque todo o sistema de mobilidade está a falhar.

De todas as deslocações que são feitas em Braga, 42% são deslocações até um máximo de 3 km. Muitas destas deslocações podiam ser feitas de outra forma, e isto não depende das pessoas, depende da forma como o espaço público está desenhado.

Precisamos ainda de evitar a dispersão urbana, de a conter, de garantir a proximidade entre habitação e trabalho e habitação e comércio ou serviços. Em limite, garantir que estes pólos estão ligados por transportes públicos que sejam competitivos com o carro: mais rápidos e previsíveis que o carro.

E aqui entra o ordenamento do território, o urbanismo. Há decisões que ficaram por tomar para o futuro da mobilidade em Braga. O PDM é essencial neste ponto, mas faltaram as estratégias urbanísticas para o presente e para o futuro da mobilidade, como garantir corredores ferroviários, canais de transportes públicos e uma rede ciclável. E faltam porque quem governa não quis, nem quer, a ajuda dos vereadores da “oposição”. E quem não quer ser ajudado, não se pode queixar de não ter ajuda.

Ainda que o PDM obrigue à existência de passeios nas novas construções que são limitadas por ruas existentes, há processos urbanísticos que, inexplicavelmente, são licenciados sem passeios. Como é que, no ano 2026, se permite construir uma casa com acesso direto para a estrada?

Neste momento temos um espaço público totalmente dominado pelo carro, um transporte público pouco competitivo, pouco previsível (sobretudo nas horas de ponta), mais lento e demorado que o carro e um espaço público desafiante, que incute o medo, a quem quer andar a pé ou de bicicleta. Isto torna difícil dar prioridade a outros modos de transporte e impossível convencer as pessoas a não usar o carro.

Não vamos resolver o trânsito combatendo o trânsito. Vamos resolvê-lo oferecendo alternativas reais ao carro. E a alternativa não passa por dizer às pessoas que usem a bicicleta, que andem a pé, que deixem os filhos ir desta forma para a escola, ou em aumentar o número de autocarros nas linhas - que depois acabam presos no trânsito e com atrasos superiores a 30 minutos nas horas de ponta.

A alternativa passa por soluções infraestruturais que tornem o transporte público competitivo com o carro, um espaço público que torne o uso da bicicleta uma opção segura, um espaço público que permita às pessoas caminharem, às famílias circularem facilmente com os carrinhos de bebé, aos cegos andarem no nosso concelho e aos cadeirantes circularem por todas as ruas do nosso concelho.

A mobilidade induz-se. Parece que a opção política continua a ser mais trânsito.

Mário Meireles

Mário Meireles

26 março 2026