Não me recordo de alguma vez ter estado em Castelo Branco e, por isso, aproveitei um breve período de férias, entre 25 e 28 de agosto, para conhecer esta cidade marcada pela história, pela identidade cultural e pela serenidade das terras do interior de Portugal. Capital do distrito e da região, situa-se num lugar onde as paisagens da Beira Baixa, os horizontes do interior e uma forte memória histórica lhe conferem um encanto acrescido.
O seu nome parece derivar de um antigo castelo de pedras claras que dominava a região. A sua localização estratégica conferiu-lhe um lugar relevante ao longo da história, sobretudo durante a Idade Média, quando as fronteiras e os caminhos do interior exigiam a presença de estruturas defensivas. A povoação recebeu foral, em 12131, e conheceu um desenvolvimento significativo ligado à Ordem dos Templários e, depois, à Ordem de Cristo. Ainda hoje, o castelo e os vestígios das antigas muralhas recordam esse passado de vigilância e defesa.
Mas Castelo Branco não é apenas um lugar de pedras antigas. É também uma cidade que sabe preservar a memória e abrir-se ao futuro. O seu centro histórico conserva edifícios, igrejas e espaços urbanos que testemunham a evolução da cidade e ajudam a compreender a vida das populações que ali habitaram ao longo dos séculos. Entre as igrejas, o destaque vai para a Sé (Igreja de S. Miguel), elevada a Concatedral, em 1956, e a monumento nacional, em 2021. De traçado originalmente românico, sofreu alterações ao longo dos séculos, sendo hoje visíveis sobretudo os elementos da arquitetura barroca e rococó.
Entre os elementos mais emblemáticos do património albicastrense destaca-se o Jardim do Paço Episcopal, um tesouro artístico e paisagístico, bem como um dos mais notáveis jardins barrocos portugueses. Situado junto ao antigo Paço Episcopal, o jardim apresenta uma organização cuidada, onde a natureza dialoga com a arte e com a simbologia. As estátuas, os lagos, as fontes e os caminhos transformam este espaço num lugar de contemplação.
Particularmente impressionantes são as esculturas que representam personagens da história de Portugal e figuras relacionadas com a tradição cristã. O jardim não é, apenas, um espaço verde, é também um lugar onde a arte conta histórias. Trata-se de uma das imagens mais reconhecidas de Castelo Branco e um dos grandes motivos de orgulho da cidade.
Os bordados são outro dos elementos da identidade cultural da região e uma das expressões mais originais do património artístico português. Distinguem-se pela riqueza das cores, pela delicadeza dos motivos (flores, árvores, aves e outros elementos inspirados na natureza) e pela utilização da seda. Tradição transmitida através das gerações, tornou-se um dos mais significativos sinais da cultura da Beira Baixa.
A cidade possui também importante vida cultural e educativa. As instituições de ensino, os espaços culturais, museus2 e equipamentos públicos contribuem para fazer dela um centro significativo da região. A ruralidade da envolvência e a resposta às exigências da vida de hoje fazem com que a cidade se afirme como um lugar onde é possível estudar, trabalhar e criar.
Castelo Branco é igualmente uma porta de entrada para uma vasta região de grande interesse natural e paisagístico. A Beira Baixa oferece horizontes amplos, aldeias antigas, rios, serras e paisagens que mudam ao longo das estações do ano. A proximidade de diferentes áreas naturais permite estar em contacto com o silêncio, a lentidão e a natureza.
A gastronomia é também uma expressão importante da identidade regional. Os sabores da Beira Baixa estão ligados aos produtos da terra e às tradições agrícolas e pastoris. O azeite, os queijos, os enchidos, os pratos preparados lentamente e os doces tradicionais fazem parte de uma cultura gastronómica que valoriza os produtos locais e as receitas tradicionais.
Castelo Branco recorda-nos que o interior não é um espaço vazio nem uma simples periferia: é um território de memória, de cultura e de futuro, cujas cidades desempenham um papel fundamental na preservação do património, na valorização das tradições e na construção de novas oportunidades. Apresenta-se, assim, como uma cidade onde a história permanece viva, mas não impede o caminho para o futuro. Entre as pedras antigas do castelo e os espaços modernos da cidade, entre os jardins barrocos, os bordados tradicionais e as expressões culturais contemporâneas há uma cidade que continua a escrever a sua própria história.
Visitar Castelo Branco é deixar-se surpreender por essa união entre passado e presente; é descobrir que, por detrás da tranquilidade das suas ruas e das paisagens que a rodeiam, existe uma profunda riqueza cultural; é perceber que a alma da cidade foi sendo formada lentamente, através dos séculos, pelas mãos dos seus habitantes, pela beleza da sua paisagem e pela memória das gerações que ali viveram.
Da visita que lhe fiz, fiquei com a ideia de que Castelo Branco é um lugar para olhar, escutar, aprender e descobrir, uma cidade que guarda a memória do passado, vive plenamente o presente e procura construir, com confiança, o seu futuro.
1 Foi-lhe dado por D. Pedro Alvito, mestre da Ordem do Templo. D. Manuel concedeu-lhe novo foral, em 1510.
2 Os mais conhecidos são o Museu Francisco Tavares Proença Júnior (arqueologia, arte sacra e artes decorativas) e o Museu Cargaleiro (dedicado à obra e à coleção de Manuel Cargaleiro, com pintura, cerâmica, azulejaria...). Mas possui também o Centro de Cultura Contemporânea, a Casa da Memória da Presença Judaica em Castelo Branco, o Centro de Interpretação do Bordado de Castelo Branco, o Museu da Seda e o Museu de Arte Sacra.