De forma quase recorrente emergem ideias de que a redução de impostos e de preços – sobretudo em produtos de maior consumo – criam maior igualdade e podem tornar-se fatores de ‘justiça social’. Esta pretensa visão igualitária tem tanto de interessante quanto de populista e até injusta, pois faz ricos e pobres beneficiarem das mesmas medidas e de forma transversal podem favorecer quem não precisa nem deveria ser alvo de tais benesses.
1. Sem presunções filosóficas ou políticas poderemos considerar o ‘igualitarismo’ como essa pretensão que defende que todos os seres humanos devem ter a mesma importância, os mesmos direitos, as mesmas oportunidades e um tratamento igual perante a lei e a sociedade. Teoricamente o ‘igualitarismo’ defende o sufrágio universal, a democracia e os direitos civis; ao nível económico pretende-se reduzir as diferenças de rendimento, dando igualdade de oportunidades nas condições de acesso à educação e ao trabalho sem ter em conta a origem social... Alguns críticos, no entanto, apontam que uma busca assim cega pela igualdade total pode ignorar as diferenças naturais de talento, de esforço pessoal ou até de limitar a liberdade económica individual...
2. Quando nos dizem que os preços dos combustíveis devem ser mais baratos indistintamente, sem olhar aos custos; quando decretam autoestradas isentas de portagem por conveniência eleitoral; quando se reclama do custo de vida e se quer tirar todo o imposto para os (ditos) bens de primeira necessidade; quando se deseja nivelar todos pela mesma bitola, fazendo dos ricos pobres e dos pobres ricos…Será isso verdadeiro igualitarismo? Não estaremos a colocar em pé de igualdade pobres e ricos, de forma um tanto injusta e mais discriminatória do que equitativa? Por que tem os do Minho de pagar a autoestrada das beiras, se não passam lá? Por que hão de os do Algarve de suportar as vias rápidas do litoral, se nunca as usam? Não seria mais correto, honesto e sensato manter-se o princípio de ‘utilizador-pagador’, numa apreciação de justiça social mínima e aceitável? A quem interessa enganar, senão aos proponentes e seus apaniguados?
3. O princípio emanado da revolução de 1789 da ‘igualdade’ – associado aos outros dois de ‘fraternidade’ e ‘liberdade’ – corre um sério risco de ser criador de mais injustiça, pois, nivelando tudo e todos, pode favorecer quem mais tem, colocando-o em pé-de-igualdade com os mais pobres e gerando uma discriminação ainda mais acentuada. Com efeito, justiça não é dar a todos indistintamente de forma igual, mas corrigir os desníveis dos mais empobrecidos e fragilizados.
4. Há chavões que entraram no léxico do nosso politiquês e/ou socialês que revelam uma evolução semântica que tem tanto de perigosa quanto de camufladamente insidiosa, tais como: discriminação positiva, elevador social, fraco aproveitamento escolar devido à baixa autoestima e tantas outras frases e expressões onde dá a impressão de que aquilo que é dito quase deseja significar o seu contrário. Por vezes tem-se a perceção de que vivemos sob uma pretensão de nivelar por baixo aquilo que deveria ser vivenciado por cima…
5. Talvez possamos incluir neste contexto a vulgarização do ‘quanto-pior-melhor’, obnubilando tantas situações positivas e edificantes, pelo menos se atendermos aos valores que reputamos de essenciais no quadro ético/moral de índole cristão. A doutrina da Igreja católica para as questões sociais é muito mais do que umas pinceladas de igualdade ou de assistencialismo barato e de conveniência. É quase repugnante que se pretenda enquadrar muita da ação da Igreja – católica ou outra – em favor do próximo como se a formação para os valores não seja tanto ao mais significativa do que reivindicar direitos esquecendo os deveres. Estamos eivados de influências ideológicas com matiz quase dialético-marxistas mais primárias.
6. O tal slogan – ‘todos diferentes, todos iguais’ – não será o melhor retrato deste igualitarismo injusto e roçar o maquiavélico?