Poucos lugares em Portugal apresentam uma linha do tempo tão singular e contínua como o complexo monumental de Montélios. Num mesmo espaço coexistem o Mausoléu de São Frutuoso (século VII), o Convento de São Francisco (século XVI) e a Igreja Paroquial de São Jerónimo de Real (século XVIII): cerca de mil e quinhentos anos de notável continuidade funcional.
Não se trata de uma sobreposição acidental: cada época reconheceu neste lugar uma centralidade que procurou preservar e ampliar. É um raro caso de permanência: a passagem dos séculos não apaga a leitura histórica – antes estratifica e aprofunda.
Por razões que só a intuição do tempo poderá explicar, terá sido este o lugar escolhido por São Frutuoso para a sua sepultura. Monge e bispo de Braga e de Dume, figura maior da espiritualidade da Hispânia visigótica do século VII, foi fundador de inúmeros mosteiros e autor de duas das mais caraterísticas regras do monasticismo peninsular – Regula Monachorum e Regula Monastica Communis. A escolha não foi, pois, indiferente: inscreveu-o, desde cedo, num mapa espiritual de exceção que, até ao século XI, se terá afirmado como centro de culto frutuosiano, atraindo práticas devocionais e, muito provavelmente, formas de peregrinação.
O mausoléu que chegou até nós é um dos monumentos mais intrigantes da Alta Idade Média europeia. De planta em cruz grega, com quatro absides – originalmente autónomas, cada uma com a sua abóbada semiesférica e janela de arco de ferradura – e um núcleo central coberto por cúpula octogonal assente em oito colunas de capitéis coríntios, revela influências do Mediterrâneo oriental, numa síntese singular de tradições visigótica e bizantina. A sua arquitetura tem suscitado intenso debate académico ao longo de gerações. Em 1939, Manuel Monteiro publicou uma monografia pioneira que o interpretava à luz das então chamadas construções moçárabes. Mais recentemente, o trabalho de Francisco Andrade consolidou décadas de investigação arqueológica da Universidade do Minho (UMinho), coordenado por Manuela Martins e Luís Fontes. Em artigo publicado em 2026, demonstrou cientificamente a existência de elementos do século VII, evidenciou a complexa estratificação temporal da construção e sugeriu a presença de uma estrutura cerca de um século mais antiga – tardo‑romana ou sueva – cujos materiais terão sido reaproveitados no mausoléu.
Séculos mais tarde, o lugar reencontrou a sua centralidade com a chegada dos franciscanos. O arcebispo D. Diogo de Sousa (1461–1532), figura decisiva na renovação urbanística e religiosa de Braga, ordenou a edificação do convento entre 1522 e 1523. Influenciado pelas suas visitas a Roma e Florença, procurou recriar aqui, à maneira dos prelados que admirara, uma casa de retiro nos arredores da cidade. A arquitetura conventual segue o modelo franciscano – sóbria e funcional –, mas apresenta uma singularidade notável: a integração do mausoléu visigótico no seu interior. Estranha para os critérios contemporâneos, esta opção terá sido, paradoxalmente, uma das condições da sua preservação. A D. Diogo se deve, ainda, o belo cadeiral renascentista hoje existente na igreja – um dos poucos exemplares sobreviventes em Portugal –, transferido da Sé de Braga aquando da sua posterior renovação barroca.
De facto, no século XVIII, D. Rodrigo de Moura Teles promoveu a reconstrução e ampliação do conjunto, com a edificação da monumental igreja conventual, então dedicada a São Francisco. Integrada no grande movimento de renovação arquitetónica que transformou Braga nesse período, a nova igreja não substitui, enquadra o existente — apesar da solução heterodoxa de mutilar uma das absides do mausoléu, adossando-a à nave. O resultado é a configuração que, no essencial, chegou até hoje: três épocas distintas reunidas numa única continuidade.
O fim da atividade conventual ocorreu com a extinção das ordens religiosas masculinas, em 1834. O convento perdeu a sua função original, enquanto a igreja manteve o culto paroquial. As antigas dependências foram vendidas e convertidas em exploração agrícola – uso que, se por um lado assegurou a ocupação do espaço, por outro contribuiu para a sua progressiva degradação. Quando, na década de 1930, o Estado interveio para recuperar o mausoléu, o conjunto encontrava-se profundamente descaracterizado. Esse processo, conduzido por arquitetos como Ernesto Korrodi e João de Moura Coutinho, foi marcado pelos conceitos patrimoniais do Estado Novo.
Mais recentemente, o convento foi objeto de uma intervenção profunda, promovida pelo Município de Braga em articulação com a UMinho e com apoio do programa NORTE2020. Sob coordenação da arquiteta Maria Manuel Oliveira, o projeto assentou numa sólida caracterização histórica e beneficiou do saber de mestres das técnicas construtivas tradicionais. Resultou num equilíbrio notável entre a preservação da memória construída e a adaptação a novas funções, incluindo a instalação de um núcleo da Unidade de Arqueologia da Universidade.
Não obstante, a obra permanece incompleta, quer no edificado, quer nos arranjos exteriores projetados, incluindo a evocação de um bosque franciscano. A anunciada criação do Polo Arqueológico da CIM do Cávado, no contexto do Plano Estratégico da Cultura Norte 2030, poderá conferir maior abrangência e coerência ao conjunto.
Assim, Montélios revela-se hoje como um lugar raro: matriz de repouso das relíquias de São Frutuoso – apesar da história inquieta que estas conheceram – e espaço de uma permanência funcional jamais interrompida: primeiro e sempre culto, depois agrícola e, hoje, também científica e cultural.
Um verdadeiro palimpsesto, onde as camadas do tempo afloram, nítidas, ao olhar. Mas é também, e sobretudo, um lugar vivo — na pulsação da atividade paroquial que conduz o melómano cónego Hermenegildo Faria; na presença universitária que se deseja atuante; e na dedicação cívica de associações como os Amigos do Convento.
Se nos aproximarmos de uma das janelas voltadas a norte do convento hoje restituído, essa continuidade impõe-se com maior clareza: ali está Dume, tão próximo — o outro centro estruturante deste “vale sagrado”.
Um conjunto desta natureza reclama um olhar mais demorado e um enquadramento mais ambicioso por parte das entidades públicas, sobretudo face à crescente pressão urbanística que o envolve. São lugares como este que nos permitem apreender, de forma concreta e profunda, o que significa ser daqui.