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Por Entre Linhas e Ideias

 


 

Que valor tem uma vida que nunca se põe ao serviço de outra? Hoje quero olhar para aquelas pessoas de quem poucas vezes se fala. Refiro-me às que trabalham na sombra, sem palco e sem esperar reconhecimento. São as que organizam recolhas, visitam doentes, acompanham idosos, ajudam crianças, protegem animais, limpam matas, dão sangue, servem refeições ou mantêm viva uma associação local. Todos conhecemos alguém assim, alguém que decidiu que a vida dos outros também lhe dizia respeito.

Falar de voluntariado é falar de ética prática, de uma ética que não fica nas ideias ou nos discursos, mas se transforma em ação diante da vida dos outros. O voluntário não substitui aquilo que o Estado deve garantir, nem existe para colmatar falhas das políticas públicas, mas para acrescentar humanidade e cuidado a quem precisa.

Em Portugal, esta realidade tem enquadramento legal. A Lei n.º 71/98, de 3 de novembro, estabelece as bases do voluntariado e o Decreto-Lei n.º 389/99, de 30 de setembro, regulamenta a sua prática, lembrando que o voluntariado deve ser livre, responsável, desinteressado e desenvolvido no âmbito de entidades promotoras. Esta referência protege o sentido do voluntariado e impede que ele seja confundido com exploração ou substituição de trabalho devido.

Digo isto também a partir da minha experiência pessoal. Como dirigente associativo voluntário, sei bem que este trabalho exige tempo, disponibilidade e persistência. Muitas vezes há reuniões, contactos, decisões e tarefas que se fazem fora de horas, sem grande visibilidade, mas com a certeza de que vale a pena quando a causa é importante.

Também por isso, vale a pena lembrar figuras que, ao longo da história, mostraram como a dádiva pode transformar vidas. Henry Dunant, fundador da Cruz Vermelha, ficou marcado pelo sofrimento dos feridos em Solferino e mostrou que a compaixão pode tornar-se responsabilidade coletiva. Florence Nightingale, pioneira da enfermagem moderna, ensinou que cuidar não é apenas um gesto de bondade, mas uma prática que exige conhecimento, disciplina e responsabilidade, Madre Teresa de Calcutá tornou visível a vida dos esquecidos e Aristides de Sousa Mendes escolheu salvar vidas quando teria sido mais cómodo obedecer.

Caros leitores, basta olharmos para o nosso tempo para percebermos que há organizações que nos obrigam a encarar problemas que preferíamos que não existissem. A Greenpeace alerta para a destruição ambiental e para a urgência de proteger o planeta, a Amnistia Internacional recorda que os direitos humanos são uma exigência, e os Médicos Sem Fronteiras mostram que a dor humana não deve ficar presa às fronteiras de cada país. Mais perto de nós, o Banco Alimentar, a Refood, a Liga Portuguesa Contra o Cancro, a Operação Nariz Vermelho, os bombeiros voluntários, as Misericórdias, os escuteiros e tantas associações locais dizem-nos, cada um à sua maneira, que a solidariedade precisa menos de discursos e mais de braços, tempo e persistência.

Entre estas iniciativas, merece referência a Associação Correr por Quem Não Pode Gritar, recentemente constituída, que sensibiliza para a violência doméstica e para o abuso sexual, dando voz a quem vive no silêncio e no medo.

Claro que o voluntariado não resolve tudo, nem substitui a justiça social ou as boas políticas públicas, mas uma comunidade onde ninguém se dispõe a dar tempo aos outros fica sempre mais pobre. Simone Weil escreveu que “a atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade”. Talvez seja isso que o voluntário oferece antes de tudo, a atenção a quem precisa, a capacidade de reparar no outro, de escutar antes de julgar e de perceber que há vidas que precisam de presença, cuidado e compromisso.

Caros leitores, uma sociedade começa a perder-se quando cada um passa a achar que o sofrimento dos outros não lhe diz respeito e, por isso, deixo-vos esta pergunta, como convite à reflexão.


 

Que fazemos nós com o tempo que temos?



 

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

25 junho 2026