1. Fiz o Curso de Cristandade nos primeiros dias de agosto de 1964. Uma das afirmações que lá ouvi, e tenho recordado pela vida fora, é a de que ninguém é grande para o seu criado de quarto.
Um dos literatos que muito admiro é Almeida Garrett. Pois Garrett, segundo li, era um vaidosinho. Usava um conjunto de artifícios a fim de surgir em público de corpinho bem feito. Um dia mudou de empregado de quarto. À noite, o novo empregado, quando o ajudou a despir-se, saiu espavorido porque o patrão se estava a desfazer!
Há um poema de Eugénio de Castro intitulado os três chinós de Garrett. Para dar a impressão de que não era ‘calvo como uma noz’, o Autor de «Viagens na minha terra» mandou fazer três cabeleiras, com tamanhos diferentes, que ia usando alternadamente.
2. Todos somos humanos. E ser humano é ser limitado. É ter altos e baixos. É ter êxitos e fracassos. O importante é que nos não deixemos endeusar pelos pontos altos nem nos deixemos ficar prostrados nos momentos de abatimento. Como as ondas do mar, a vida é feita de cristas e de vales. Não há como aceitarmo-nos como somos, embora o facto de termos defeitos – porque perfeito, só Deus – nos leve a cair na tentação de só vermos em nós defeitos ou de andarmos tão inconscientes que aos defeitos chamemos virtude.
3. Uma coisa é o que somos para quem nos conhece no dia-a-dia e outra, o que somos para quem só ocasionalmente nos vê. Quem nos conhece na intimidade sabe, melhor que qualquer outra pessoa, o que realmente cada um de nós é.
Há o ser e o parecer. Há a imagem e a realidade. Nem sempre as duas coincidem. Mais: entre uma e outra chega a haver uma enorme distância.
Vivemos numa sociedade em que se cuida muito da imagem. Em que as pessoas se preocupam muito com o que delas se possa pensar. E trata-se, então, de fazer um conjunto de retoques a fim de que os outros pensem o que desejamos pensem.
4. Faz-se isso em relação às pessoas e às coisas. Vejam o cuidado posto na fachada de certos prédios. Transposta a porta, o interior nem sempre é o que o frontispício dava a entender. Vejam o que se passa com certos rostos: retirados os cremes e as pinturas, o que parecia uma cara jovem e bela deixa a descoberto muita coisa que se pretendeu encobrir.
5. Assim como se pretende criar uma falsa imagem do aspecto físico das pessoas e das coisas, também isso acontece quanto a outros pormenores da vida de cada um. Pessoas que na rua se apresentam como extremamente simpáticas e gentis são, em casa, simplesmente insuportáveis. Pessoas dotadas de grande verbosidade, sempre prontas a falar de tudo, escondem com o palavreado uma cultura mais que superficial. Pessoas que não deixam de zurzir forte e feio no vício e se apresentam como modelos da estátua da honestidade e da honradez, escondem comportamentos altamente reprováveis.
6. Numa sociedade que tem a arrogância de querer dispensar Deus não faltam os que se apresentam como deuses e os que como deuses são olhados.
Há os que se endeusam. Há os que são endeusados e se deixam endeusar. Os que gostosamente vêem queimar-lhes toneladas de incenso que não deixam de pagar com magnânima generosidade.
Quando se verifica que os deuses tomam forma humana; quando se verifica que os tais seres superiores são, afinal, como os simples mortais; quando se verifica que os modelos de virtude também alimentam os seus pecadilhos ou até os seus pecadões...
Vivemos numa época em que os deuses caem. Em que vêm a nu as cobardias de falsos heróis. E perante os factos, muitos ficam boquiabertos.
Nem tudo o que parece é. Num mundo em que a transparência é um vocábulo repetido a propósito e a despropósito é bom tomarmos consciência das muitas opacidades. Para não andarmos iludidos.