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A “onda repovoadora”

 

 



 

Por resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, 2026 foi decretado Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Deliberação que visa aumentar a consciencialização das pessoas sobre a importância dos pastos saudáveis na segurança alimentar, na gestão da biodiversidade e não só. É algo que parecendo de somenos importância traz enormes benefícios para todos. Já que é uma forma de chamar a atenção para a necessidade do incentivo ao pastoreio no sentido de promover o equilíbrio ambiental, minimizar a degradação dos pastos e travar o crescimento de vegetação lenhosa em zonas de baldio, por forma a diminuir os riscos de incêndio.

O quase abandono da pastorícia, iniciado há já alguns anos, deveu-se, sobretudo, à falta de perspetivas de um futuro mais consentâneo com a vida corrente das pessoas. Visto o armentário não poder beneficiar das comodidades existentes nos grandes centros urbanos do país, onde se concentram os equipamentos e serviços essenciais ao seu dia-a-dia. Assim como os melhores empregos e condições mais apelativas para quem precisa de tratar da saúde, usufruir de eventos culturais, divertimento, convívio social, etc. Algo que não obtém nos locais do pasto, dado passar horas a fio isolado no meio do nada e ter por única companhia os seus animais. 

Mesmo assim, tempos houve em que não faltavam pelos montes e prados guardadores de rebanhos não só de ovelhas e cabras, como de outras espécies. Os quais foram desertando dessa vida incerta, em termos de rendimento e de sujeição às imprevisíveis intempéries. A que se lhes juntava o facto de os rebanhos, enquanto seres vivos, estarem expostos a pragas e doenças que os podem levar à morte. Não, sem antes ter um encargo acrescido com as visitas do veterinário e medicação. Fator não muito diferente daquilo que acontece nos dias de hoje, em que o pegueiro pode ter de enfrentar a perda do seu ganha-pão. 

Para além de tais desvantagens, outras pesam e muito: como o pastoreio sem férias; domingos; feriados e horário de trabalho. Isto é, a vida a processar-se em função da proteção, alimentação e estado físico de cada um dos irracionais. Sendo que o pastor ou a pastora, que também as há, conhecem-nos pelas suas caraterísticas, sabem o nome deles e eles conhecem-nos à distância, obedecem-lhes ao som do assobio e se alinham de volta ao ovil. 

É a pensar na vida deles e no seu útil contributo para o repovoamento do interior, voltando a introduzir ruminantes nos terrenos abandonados e nas zonas florestais em situação de acumulação de resíduos florestais, que o governo da tutela está a procurar incentivar, ainda que timidamente, o pastoreio. Sim, porque nos dias que correm o novo rabadão já não usa métodos ancestrais na sua atividade, mas modernos equipamentos. 

Ou seja, já se socorre de modernas ferramentas, isto é, de novas tecnologias, tais como: o Chipe (no animal); GPS; Smartphone e, até o Drone. Não só como meio de comunicação, como de localização e recuperação de alguns animais que, porventura, se extraviem. Estou a lembrar-me de um reclame, na TV, de uma operadora de telemóveis em que um pastor junto ao rebanho e apoiado no cajado – em pleno pasto – recebe uma chamada e responde: – tou chim…é p’ra mim!

Assim sendo, com a vida de apascentador mais facilitada, já se começa a honrar o cognome do nosso monarca, D. Sancho I, “O povoador”. Sendo que, desta vez, se trata de uma “onda” repovoadora” composta por famílias nacionais e estrangeiras que vêm optando pelo regresso ao campo para fazerem agricultura biológica e criação de animais. 

Em fuga das grandes cidades à vida agitada, confusão e stress, alguns programas televisivos vão-nos dando conta dessa recente realidade. Exibindo peças sobre cidadãos e cidadãs em busca do paraíso na terra. Ou seja, de natureza, paz, sossego, ar puro e aromas do plantio espalhados pelo vento que passa. Compete, pois, ao Governo acarinhar esses contribuintes para a repovoação do interior desertificado. 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

5 abril 2026