1. Quando – depois de ressuscitar – apareceu aos discípulos, Jesus desarmou o medo que os tolhia (cf. Jo 20, 19) com uma tripla saudação: «A paz esteja convosco» (Jo 20, 19. 21. 26).
A paz de Jesus estilhaça o medo que comprime e consegue despedaçar as armas que intimidam e destroem.
2. Não espanta que, em maio de 2025, Leão XIV se tenha apresentado, à Igreja e ao mundo, como portador desta «paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante».
Só que a humanidade, nos antípodas da saudação de Cristo retomada pelo Papa, presume que a paz se garante com armas. É aceitável que o meio para fazer a guerra seja credível para construir a paz?
3. Dir-se-á que as armas têm um efeito dissuasor. A esta luz, existirão para não ser usadas.
Não é isso, contudo, o que mostra a realidade. Não seria mais avisado encaminhar as armas para um desenlace inexpiável? Ou seja, para que ninguém as use, não será preferível que não existam?
4. A manutenção da paz não inclui necessariamente as armas. E a promoção da paz exclui liminarmente o recurso a qualquer tipo de armamento, incluindo o armamento da língua.
É neste sentido que o Santo Padre recomenda que comecemos «por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias».
5. Na Magnifica Humanitas – a sua primeira encíclica –, não menoriza a premência do desarmamento digital.
Tal «não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano».
6. Definitivamente, não é com armas que o mal será derrotado.
Pelo contrário, é com armas que o mal tem prosperado ao deturpar o Amai-vos uns aos outros num insuportável Armai-vos uns contra os outros.
7. Mas como desarmar a paz? Só percebendo que, como alertou o Sumo Pontífice, «Deus ama-nos a todos», sem armar ninguém. Efetivamente, apenas no amor «o mal não prevalecerá». É, portanto, no amor que o regresso a Deus constituirá sempre o ingresso na paz.
De tanto que nos legou, o amor avulta como o compêndio da mensagem de Jesus: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 13, 34; 15, 12).
8. Por conseguinte, percebe-se que Deus seja mais acessível ao coração que ama do que à mente que pensa. O amor é o que maior honra tributa a Deus, que é amor (cf. 1Jo 4, 8.16).
O Seu poder é uma emanação do Seu amor. Nem sempre o poder é amoroso. Mas o amor será sempre poderoso.
9. Há, porém, um problema. Os homens têm preferido o amor do poder ao poder do amor.
Emerge, entretanto, uma esperança. Que a humanidade opte pelo poder do amor.
10. O amor do poder tem esganado a vida de muita gente.
Só o poder do amor transformará a vida de toda a gente. E devolverá a paz desarmada a este tão desamado mundo.