Era um casal normal: ele, advogado que, a pouco e pouco, foi crescendo de nome e importância relevante na sua vida profissional; ela, enfermeira durante vários anos, mas que, voluntariamente, deixou a sua vida de trabalho, porque do seu casamento, – habitualmente de ano e meio em ano e meio –, na primeira vintena matrimonial, apareciam novos rebentos que a ocupavam dum modo absorvente.
Cinco anos depois de gerarem o seu oitavo filho, quando pensavam que a sua prole já não iria crescer mais, eis que surgiu uma nova gravidez, da qual saiu um rapazinho a quem no seu baptismo – foram seus padrinhos o irmão mais velho, primeiro filho do casal, e a primeira das cinco irmãs, já todas bem crescidas – deram-lhe o nome de Ricardo, tendo em conta o seu avô materno, já chamado por Deus para a eternidade.
A vida continuou o seu rumo. A prole parou de aumentar com a vinda do Ricardo. Era o irmão mais novo, muito acarinhado por todos e, certamente, recebendo do ambiente familiar uma educação onde predominava a atenção de uns para com os outros, que se estimavam, respeitavam, apesar das zangas passageiras que a convivência quotidiana sempre produzia.
Como é natural, com a passagem dos anos, o nosso amigo Ricardo entrou, aos treze de idade, naquela fase complexa, mas passageira, da adolescência. Sentia-se um pouco infeliz, porque com tantos irmãos, que o olhavam sempre de cima para baixo, já que a distância de idades acentuava essa atitude. Concluía, simultaneamente, que eles o estimavam e procuravam tratá-lo bem, mas, simultaneamente, que o viam sempre como o petiz da família. Isso como que o isolou, ou melhor, o levou a não ter grandes relações com eles, procurando ensimesmar-se e viver numa rota própria e distante do dia a dia familiar…
Quando chegou aos quinze anos, houve uma grande festa em sua casa. Os dois primeiros filhos de seus pais – um rapaz e uma rapariga, ambos casados e com prole – levaram aos festejos os seus primeiros rebentos. Um deles, porém, apenas com alguns meses de idade, deu ao tio Ricardo uns parabéns muito complexos, porque chorou e berrou durante todo o tempo passado na casa dos avós.
O nosso amigo Ricardo resmungou para si: “Uma família grande é uma chatice! Só dá “problemas”. E perturbou-o também o facto – depois de apagar as velas e receber uma chamativa salva de palmas –, de ter de repartir o bolo de parabéns por todos os presentes, ficando para si, segundo matutava, apenas a fatia final, muito estreita e algo destruída com tantas “facadas” que ele teve de lhe aplicar.
Terminada a celebração, o festejado dirigiu-se para o seu quarto de dormir, muito pequeno e desajeitado, segundo ele pensava e até maldizia, porque o ocupava por ser o mais novo da filharada. Os outros descendentes, que ainda viviam na casa paterna, gozavam de muito melhores habitações, ainda que algumas irmãs tivessem de compartilhar a mesma dependência com várias camas.
Ricardo, olhando com surpresa para a sua mesinha de cabeceira, notou que havia um envelope com o seu nome. “O que é isto?”, perguntou, um pouco alarmado. Abriu-o e tinha oitenta euros. E uma mensagem: “Dos teus padrinhos, Miguel e Maria Fernanda”, ou seja, os dois irmãos mais velhos da família e já casados.
O rapaz ficou contentíssimo e exclamou: “Amanhã vou fartar-me de comer num restaurante! O que eu quiser e sem ter de pensar que os meus irmãos também precisam de comer...”