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1,5 milhões de mortos na Rússia-Ucrânia: o cinismo do Ocidente

A guerra na Rússia, iniciada na Crimeia e nos territórios de falantes de Russo seguida de resposta e invasão de Moscovo em larga escala a 24/2/22, transformou-se no conflito armado mais sanguinário na Europa desde a II Guerra Mundial. Mais de 3 anos depois, as estimativas calculam um número total de baixas – entre mortos e feridos, acrescendo militares e civis dos dois lados – que anda perto de 1,5 milhões de pessoas. Trata-se duma cifra que, mesmo tendo em consideração a margem de incerteza inerente a qualquer guerra em curso, faz transparecer a tragédia dum embate que poderia, em várias alturas, ter enveredado por um rumo diverso no caso de haver vontade política verdadeira para o diálogo. Do lado russo-russo, as perdas são muito pesadas. Relatórios de serviços de inteligência ocidentais, bem como investigações independentes conduzidas por meios como a BBC e o Mediazona, estimam mais de 1 milhão de soldados russos mortos ou feridos com gravidade. A estratégia do Kremlin tem se fundamentado em vagas seguidas de assaltos frontais, no recurso, de início, a prisioneiros recrutados pelo grupo Wagner e, nos últimos tempos, a contingentes vindos da Coreia do Norte. É um plano de desgaste que encara a vida humana como recurso descartável, sacrificada em nome de objetivos territoriais e históricos. E o mesmo se aplica, mutatis mutandis, a Zelensky e à região da Ucrânia. Putin recusa a real dimensão das perdas e ao manter uma narrativa de "operação militar especial", não deixando que a sociedade russa confronte o verdadeiro custo da guerra. Mas Zelensky faz exactamente o mesmo noutra perspectiva. As exigências maximalistas de ambos e algumas de Putin – reconhecimento da anexação de quatro regiões de falantes russos, desmilitarização de Kiev, garantia de que a Ucrânia nunca entrará na NATO – funcionam, de modo pragmático, como um modo de tornar qualquer negociação quase impossível. Putin e Zelensky não procuram a paz no presente momento: buscam antes a capitulação do adversário sob a aparência dum acordo. Basta ver os ataques de 18 de Junho pela Ucrânia que atingiu diversos alvos civis. Mais de 1000 drones! Será Zelensky o homem da paz?! Do lado ucraniano, pois, fala-se em cerca de 500.000 mortos como em Mariupol, Bakhmut, Kharkiv e Kherson. Milhões foram deslocados, e gerações inteiras traumatizadas. Volodymyr Zelensky insiste na restituição integral dos territórios ocupados, incluindo a Crimeia, e rejeita qualquer conversa séria enquanto Putin permanecer no poder – condições pouco realistas no plano geopolítico presente. A proibição legal de negociar com Putin, assinada por decreto em 2022, prova essa suicidária rigidez. Zelensky assinou a mobilização forçada, e as denúncias de recrutamento violento nas ruas da Ucrânia entre jovens e a relutância em discutir compromissos territoriais mostram que também em Kiev a paz é tratada como tema tabu. Putin e Zelensky encontraram na guerra um modo de consolidar muito poder interno. Putin justifica a repressão e a militarização da economia com a ameaça externa. Zelensky mantém poderes excepcionais, adia eleições e governa num clima em que qualquer crítica é apelidada de traição. Ao mesmo tempo, soldados de ambos os lados, muitos dos quais jovens que pouco escolheram sobre o seu destino – continuam a morrer todos os dias em trincheiras lamacentas no Donbas sob o zumbido constante dos drones. Muitos gritam “Mãe” quando se apercebem que vão morrer. EUA, UE, China, Coreia do Norte e Rússia fizeram da região da Ucrânia um tabuleiro de xadrez. Todas as tentativas de fazer paz chocam com os protagonistas principais que não querem ceder o suficiente para um cessar-fogo eventual. 1,5 milhões de vítimas em crescendo não é só um número. É a incompetência da diplomacia e a arrogância de líderes que preferem os massacres a admitir que nenhuma vitória militar compensará o que já se perdeu. A paz implica sempre concessões dolorosas dos dois lados. Adiar é escolher, com dolo, mais cemitérios. Recorde-se a notícia recente Euronews: “Do asilo para a linha de morte da frente de batalha: países da União Europeia planeiam regras mais rigorosas para homens da Ucrânia”. Os filhos dos outros que morram pelas passadeiras vermelhas de Bruxelas e Estrasburgo!

Gonçalo S. de Mello Bandeira

Gonçalo S. de Mello Bandeira

19 junho 2026