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Nesta Páscoa escolha chegar



 



 

O slogan da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária dizia: ‘Nesta Páscoa escolha chegar a quem espera por si’!

Pela enésima vez enfrentamos uma campanha de sensibilização para os cuidados em andarmos na estrada. Os números são aterradores: mais fatídicos do que certas guerras, com consequências prolongadas e até gerando efeitos devastadores para as vítimas (diretas e indiretas) e seus familiares. 

 

1. As vias – estradas nacionais e autoestradas – apesar das intempéries recentes ainda estão em bom estado. Isso parece convidar a abusos, como excessos de velocidade, incumprimento do código da estrada e até nítidas faltas de educação para com os outros e os próprios. Os veículos são de melhor qualidade e isso como que incentiva a excessos e a exibicionismos dispensáveis. Nem o aumento contínuo e significativo dos combustíveis tem arrefecido as longas filas de trânsito. Ora, se os carros podem andar sem estarem totalmente pagos, a matéria para circular não se compadece com artimanhas nem habilidades. A ver pela frota circulante somos um país de ricos, muitas das vezes com tiques de falidos… inconscientes. 

 

2. A questão mais grave toca a noção de responsabilidade de muitos dos condutores. Mais do que pessoas com deveres e obrigações, os condutores parecem pequenos ditadores com uma arma aponta aos outros: com que vulgaridade se conduz, correndo riscos para terceiros. As manobras perigosas, os atos de condução sob efeitos de algo que altere os condutores (álcool, drogas, distrações ou uso do telemóvel na condução) são fatores que concorrem para o elevado número de acidentes.

 

3. Sem pretender afunilar a observação para os cristãos (católicos) que andam na estrada – mesmo na condição de peões – será de recordar que, já em 2003, a Conferência Episcopal Portuguesa incluiu no elenco dos ‘pecados sociais’ sob a designação de «irresponsabilidade na estrada». Vejamos ao que isto se referia: a irresponsabilidade na estrada, com as consequências dramáticas de mortes e feridos, que são atentado ao direito à vida, à integridade física e psicológica, ao bem-estar dos cidadãos e à solidariedade…

Desgraçadamente – só sob este ponto de análise – não vemos nem ouvimos os nossos confessados a acusarem-se de incumprir na estrada, a dizerem que excedem a velocidade, a colocarem em perigo eles e os outros e nem a sentirem que são fator de perigo de vida nas manobras realizadas na estrada.

Por aqui se pode perceber que há um desfasamento entre a doutrina e a prática, isto é, entre a aferição aos tempos diferentes e o continuar na rotina de quando se era mais novo…

 

4. A mobilidade das populações é hoje uma vertente da cultura dos nossos dias. Vias e veículos são fatores de alteração de hábitos. Muitos dos nossos contemporâneos – mesmo queixando-se do custo de vida – estão em quase permanente movimento. Percorrer quilómetros para passar umas horas ou uns parcos dias de descanso é atualmente uma vulgaridade. Já não é preciso fazer contas para ‘gozar’ uns tempos de férias – mesmo que delas venham mais cansados do que quando partiram. Com o (dito) fenómeno das redes sociais isso foi-se tornando um vício da aparência e da exibição perante os mais próximos. Em tempos ouvi alguém referir: tenho o ‘facebook’ para saber por onde andam os meus vizinhos. Com efeito, aliando a falta de senso com a pretensão de se fazerem passar por ricas, muitas pessoas perderam a noção do ridículo e até do pudor e respeito para consigo mesmas. 

 

5. O palco da estrada como que substituiu outros patamares da presença das pessoas. Será sempre avisado que aí – na estrada – pode pagar-se caro o descuido, as consequências e atropelar as causas de tantos acidentes. Já nos convencemos de que o perigo começa em nós e não nos outros? Já percebemos que a condução defensiva é a melhor arma para evitar problemas? 

 

6. Aprendamos com os erros dos outros e evitemos os nossos!

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

5 abril 2026