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Hospital e a mobilidade

O debate promovido pela Comissão de Trabalhadores da ULS de Braga colocou em cima da mesa um problema que há muito ultrapassou as portas do Hospital: Braga tem de investir na mobilidade.

Falamos de trabalhadores que trabalham por turnos, de utentes de Braga e dos concelhos vizinhos, de estudantes e milhares de pessoas que diariamente atravessam esta zona da cidade. No debate apontaram-se soluções como parques periféricos articulados com transporte coletivo e reconheceu-se a necessidade de melhorar a ligação ao Hospital.

Mas qualquer solução exige uma estratégia global. E foi pela voz do Presidente da Comissão Distrital da Proteção Civil de Braga, Manuel Tibo, que ouvimos que “Braga precisa de planeamento e estratégia”.

Braga está a trocar uma política de mobilidade por uma política de circulação automóvel.

A Linha Vermelha do BRT, que ligaria a Estação ao Hospital, passando pela Universidade do Minho, tinha 100 milhões de euros de financiamento do PRR. O atual Presidente, ao cancelar o projeto, perdeu estes 100 milhões e já teve que devolver 13 milhões recebidos. O Presidente da Câmara reconheceu publicamente que existem indemnizações a negociar pela revogação do contrato.

A linha do BRT foi apresentada como alicerce da política de mobilidade do PDM de Braga, prevendo redesenhar praças e artérias para a sua passagem. Seria um elemento privilegiado para transportar pessoas até à Universidade do Minho e ao Hospital.

Uma cidade não pode abandonar uma solução estruturante sem apresentar outra, igualmente estruturada, para o transporte público.

O Presidente da Câmara quer justificar o “deixar cair o BRT”, apostando, sobretudo, na Variante do Cávado e da Circular Externa. São investimentos rodoviários que podem ter importância na retirada de tráfego de atravessamento, mas que potenciam a utilização do automóvel e que não serão alternativas para quem se quiser deslocar ao Hospital.

No debate promovido pela Comissão de Trabalhadores tanto se falou na necessidade de Transporte Público, que a questão que temos que colocar é, então, onde estão, nessa nova estratégia, os corredores dedicados ao transporte público? Onde estão as redes contínuas para modos suaves? Onde está a intermodalidade? Onde está a alternativa real ao automóvel?

Construir mais estrada sem criar alternativas competitivas pode facilitar determinados movimentos rodoviários, mas não constitui, por si só, uma política de mobilidade fluída.

Veja-se a Rua D. Pedro V. O Amar e Servir Braga defendeu a sua repavimentação, mas votou contra uma solução que retira a circulação dos TUB nos dois sentidos. Melhorar o pavimento é uma necessidade imediata; mas reduzir a legibilidade e funcionalidade da rede de transporte público é desinvestir e estragar o futuro. Nós temos visão política para a Braga do futuro.

Também assistimos à suspensão das trotinetas partilhadas. A Câmara fundamentou a decisão em problemas de segurança e estacionamento e anunciou uma futura regulamentação sem definir prazo; o ASB absteve-se, defendendo que uma decisão desta natureza deveria assentar em dados reais e não apenas em perceções, por forma a regulamentar, fiscalizar e criar condições para que caminhar, pedalar e utilizar transportes públicos sejam alternativas reais. Quando questionado por nós, o Presidente não nos revelou os números, num claro sinal de falta de transparência.

Há ainda uma dimensão metropolitana que Braga não pode ignorar. O Hospital, a Universidade e muitas empresas são procurados diariamente por pessoas de Amares, Vila Verde, Póvoa de Lanhoso, Barcelos ou Guimarães. Pensar ligações intermunicipais, incluindo corredores como Ponte do Bico ou Ponte de Prado a Braga, não é governar para os cidadãos de outro concelho. É perceber que Braga é o centro de uma região funcional que não termina nas placas que assinalam os limites administrativos do Município.

Durante a campanha fomos criticados por defender esta visão, como se manifestar preocupação com quem diariamente entra em Braga fosse esquecer os bracarenses. Acreditamos que investir em transporte público intermunicipal é poder ter menos automóveis provenientes dos concelhos vizinhos dentro da cidade, o que significaria menos congestionamento para quem vive em Braga.

As interfaces intermodais devem ser pensadas antes da entrada no perímetro urbano congestionado e articuladas com transporte público frequente, rápido e confortável. Essa rede tem de responder aos horários reais das pessoas, porque uma política de mobilidade faz-se também à meia-noite ou às seis da manhã. Propusemos, ainda, um investimento na ferrovia e numa rede de transportes assentes no Tram-Train que serviria o Hospital.

Braga precisa de estradas em condições, de tapar buracos, repavimentar ruas e resolver pontos de congestionamento. Mas governar uma cidade não é apenas reparar o presente, é preparar o futuro.

Ricardo P. Silva

Ricardo P. Silva

1 outubro 2026