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O controlo é necessário, não é perseguição

O assunto da pobreza é sério e delicado, mas não é da falta de recursos de muitos dos nossos concidadãos que vou falar, mas de duas ou três coisas marginais. Sinto, no entanto, que o devo partilhar com os estimados leitores. Hoje, mais abertamente do que o fiz há tempos em que o introduzi sub-repticiamente numa das crónicas. Não sei se alguma vez lhes aconteceu receberem uma reclamação de um pedinte pelo facto de lhe não darem esmola. A mim já me aconteceu e uma das vezes de um modo bem sonoro.


 

Quando posso, ajudo quem acho que precisa e apoio causas nobres convictamente. Não me posso queixar da vida nesse particular, mas não ajudo, nem sequer dou esmola a quem acho que não precisa. Fui-me decidindo sobre isso ao longo de um bom período de tempo, mas com alguma intolerância quando tomei conhecimento de alguns comportamentos, a todos os títulos inaceitáveis, por parte de um dos elementos que costuma frequentar a entrada de um dos templos da cidade, sobretudo, nos horários das celebrações religiosas.


 

Sou capaz de recompensar a intervenção de um mágico ou de um músico de rua, mas não deixo qualquer moeda a quem sei ser pedinte encartado ou profissional da preguiça. Bem sei que me posso ter enganado alguma vez, ainda que não tenha disso conhecimento, mas tenho garantido que a última reclamante faz parte daquele grupo que passa a vida a pedir, melhor dizendo, que vive da pedinchice sem se preocupar em arranjar um emprego que supra as eventuais dificuldades familiares. Trago o assunto a público por julgar ser de interesse da comunidade.


 

Tenho o maior respeito por quem precisa. Sei o que é viver com dificuldade, não ter dinheiro para pagar a renda de casa, comprar a botija de gás, adquirir medicação crítica e essencial ou comprar coisas básicas, como bens alimentares. Respeito igualmente quem pede e não precisa ou não faz pela vida – a minha formação moral a isso me leva – mas não pactuo com esta última situação e, por isso, não ajudo. É um direito que me assiste e até um dever de cidadania. Considero que, em consciência, não devo ajudar, sendo que tal reparação compete às entidades com missão estatutária ou legal para tal criadas e incumbidas. E já que aqui chego, pergunto-me: não será que tais instituições deveriam intervir pró-activamente, acompanhando e fiscalizando quem começa e se mantém na actividade, meses e até anos a fio? Quem controla os rendimentos auferidos? Quem trabalha não tem forma de fugir às quotizações para a Segurança Social nem à fiscalidade, ainda que os rendimentos sejam parcos e fique isento desta última, e os que antes preferem enveredar pela mão estendida, o chapéu ou o copo vazio para não vergar a mola?


 

Bem sei que quem prefere pedir em vez de trabalhar é uma decisão individual e isso não está sujeito a qualquer contra-ordenação, mas, ainda assim, considero que tal é, em certos casos, injusto e revelador de uma tolerância nefasta para a própria sociedade. Quem conhece as situações, posiciona-se e não vai na onda nem alimenta a mendicidade desnecessária. E quem não conhece as situações, não terá o direito de ser preservado e não ser enganado? Quem o protege? Compete aos cidadãos mais informados proceder a essa protecção? Entendo que não e por várias razões, desde logo, porque quem o faz pode expor-se a aborrecimentos ou a riscos mais ou menos significativos.


 

Numa sociedade respeitadora, a solidariedade não pode ser posta em causa, mas há exigências que também não podem ficar esquecidas. O controlo é necessário, não é perseguição.

Luís Martins

Luís Martins

18 agosto 2026