Li, há dias, que a Magnifica Humanidade é uma «carta de amor» que o Papa Leão XIV escreve à humanidade de hoje. Nesta perspetiva, sem esquecer que ela se insere no caminho que a Igreja vem percorrendo desde Leão XIII, tomando consciência das «coisas novas» que permanentemente emergem e da necessidade de encontrar respostas novas e convincentes, esta encíclica deverá ser interpretada à luz do Concílio Vaticano II. Para que Deus habite na humanidade, torna-se imperioso percorrer os caminhos da «nova» eclesiologia e, em particular, da Gaudium et Spes: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os aflitos, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração (...). É por isso que a comunidade dos cristãos se reconhece real e intimamente solidária com o género humano e com a sua história» (GS 1).
Num tempo marcado pelo transumanismo, movimento filosófico e científico que se propõe superar as limitações físicas e intelectuais através das tecnologias emergentes, e pela sua evolução para o pós-humanismo, que, no seu radicalismo, nega a superioridade do homem sobre as restantes formas de vida e o retira do centro da existência, urge levar a sério o verdadeiro humanismo e ousar acreditar que a humanidade é magnífica.
A Encíclica desenvolve esta responsabilidade, explorando dois filões histórico-bíblicos, um sombrio e outro luminoso: um conduz à destruição; o outro, à harmonia e à concórdia. São dois modelos simbolizados pela construção de Babel (Gn 11, 1-9) e pela reconstrução de Jerusalém (Ne 2–4).
O construtor de Babel foi, segundo alguns, Nimrod, «o primeiro a tornar-se poderoso sobre a terra». Com ele, utilizaram-se, contra o que era habitual, «tijolos em vez de pedras» e «betume em vez de argamassa». Tudo era novo e pretendia-se construir «uma torre cujo cimo atingisse os céus». Mas tudo terminou com a suspensão da obra e a dispersão dos homens por toda a terra.
Neemias, pelo contrário, reuniu «um pequeno grupo de homens» (Ne 2,12) que respondeu ao apelo: «Vinde e reconstruamos as muralhas da cidade e ponhamos termo a tanta ignomínia» (Ne 2,17); «Ergamo-nos e reconstruamos» (Ne 2,18); «O próprio Deus do Céu é quem nos fará triunfar.» Tudo é dito no plural, mas, depois, cada um assumiu a sua tarefa na reconstrução das muralhas e das portas. O povo ganhou ânimo e prosseguiu o trabalho até à reconstrução de Jerusalém.
São dois modelos em confronto: um assente no individualismo e no desprezo de Deus; o outro, comunitário, corresponsável e marcado pela obediência confiante a Deus. Duas referências do passado, mas de enorme atualidade, que desafiam a assumir tudo o que é humano, para que Deus habite na humanidade.
Há dias, faleceu o grande filósofo, sociólogo e antropólogo Edgar Morin (29-05-2026). Morreu em França, aos 104 anos, deixando uma obra incontornável em múltiplas áreas do saber. O seu pensamento assenta no que designou por «complexidade» (o «pensamento complexo» ou «paradigma da complexidade»). Com isso, não defendia uma visão da vida como confusão, caos ou desordem; pelo contrário, criticou a fragmentação dos saberes, reconhecendo-os como indissociáveis e defendendo que só uma verdadeira transdisciplinaridade permite compreender a vida. Nada pode ser entendido de forma parcial ou isolada, destruindo ou ignorando a diversidade. Importa interagir e oferecer o contributo próprio, como peças de um mesmo todo.
Deixou também uma frase memorável: «Navegamos num intenso oceano de incertezas, onde existem apenas pequenas ilhas para nos irmos reabastecendo.» Não gosto da imagem da ilha aplicada à Igreja. A Igreja vive para acolher, fazer parar, responder e relançar na aventura. Talvez a imagem de uma balsa seja mais expressiva.
Mas não deveremos, como crentes, reconhecer que a complexidade da vida, que ninguém pode ignorar, exige uma presença da Igreja que não aniquile as diferenças, mas ofereça descanso a uma humanidade cansada? O Papa convida a «desarmar» a inteligência artificial e reconhece um «retrocesso do coração». A tecnologia pode aliviar sofrimentos e abrir novos horizontes de felicidade. Mas tudo depende da «capacidade de relação e de amor» (MH 126). «É no nosso ser limitado que encontramos lugar para a compaixão, a sincera inquietação diante das necessidades dos outros, a generosidade que surpreende também no meio da obscuridade e do fracasso» (MH 119).
Será que, nesta sociedade complexa, a Igreja será capaz de continuar a dirigir à humanidade uma carta de amor?
*Arcebispo Emérito