O futebol português parece viver num estado permanente de guerrilha. Mais do que rivalidade, mais do que competição, instalou-se um ambiente de crispação que contamina o jogo e os verdadeiros protagonistas. O recente clássico entre o Sporting CP e o FC Porto voltou a expor essa realidade. Em Portugal, muitas vezes, a bola rola muito para além dos 90 minutos e com os piores protagonistas. Joga-se pouco, corta-se muito o jogo, a relva é fofinha dá para rebolar e teatralizar, o apito não para, e depois, aparecem os figurantes que batem mais que os jogadores. Lamentável!
Dentro de campo, o jogo foi fraco, mas disputado. O verdadeiro problema surge quando o apito final deixa de significar o fim do jogo e passa a ser apenas o início de uma nova batalha: a dos discursos, das suspeitas e das acusações. Foi precisamente isso que se voltou a verificar. No pós-jogo surgiram queixas, respostas, acusações, provocações, que rapidamente alimentaram o circo. Em poucas horas, o foco deixou de estar no jogo e passou para a narrativa da acusação presidencial. O problema é que esta lógica, no futebol português, tornou-se estrutural e habitual. Os presidentes já não comunicam apenas para os seus sócios e adeptos, falam também para marcar território, pressionar adversários, atirar lama, influenciar arbitragem futura e consolidar narrativas, que se repetem semana após semana. Neste ambiente, cada palavra ganha uma dimensão desproporcionada, cada gesto é interpretado como provocação e quando esta acontece é em forma de “lança-chamas”. Cada decisão do árbitro transforma-se numa prova de conspiração, mas tem cor… Se for da minha, está tudo bem, mas quando é para o adversário… Isso é “roubo”!
Quando um presidente de um clube fala desta forma, a rivalidade deixa de ser apenas desportiva e passa a ser institucional. O mais preocupante é que esta cultura de conflito acaba por contaminar todo o ecossistema desportivo, porque dá material para abrir telejornais. Dirigentes falam para as câmaras com tom beligerante, treinadores sentem necessidade de responder, comentadores ampliam a polémica e os adeptos absorvem toda esta tensão como se fosse parte natural do espetáculo.
No final, perde o futebol. Perde, porque o debate deixa de ser sobre ideias de jogo, talento, estratégia ou prestação das equipas. Perde, porque a atenção mediática concentra-se na polémica e não no jogo. E perde, porque a perceção pública é constantemente dominada pela suspeição e pelos péssimos exemplos.
Naturalmente, a rivalidade entre clubes como o Braga, o Sporting, o Porto, o Benfica, o Vitória, entre outros, faz parte da história e da paixão desportiva. Sem rivalidade, o Desporto perderia grande parte da sua emoção. Mas, na rivalidade não pode entrar o baixo-nível e a falta de Educação. E, se entrar, tem que ser forte e exemplarmente penalizado.
Isso…não é Desporto! Crlos