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A Política

1. A política pode ser entendida como a ideia de Cidade, uma ideia que tem na felicidade do Homem um elemento essencial e uma ideia ainda que nos remete para a acção que procura o Bem Comum. Esta ideia e o seu desenvolvimento têm raízes e podemos encontrá-las primeiro no pensamento da Grécia antiga e depois no pensamento cristão, nomeadamente em São Tomás de Aquino. Ora a perspectiva da política como busca da felicidade individual e do bem comum tinha como consequência imediata a identificação do poder como um meio e nunca como um fim. A arte ou a ciência da conquista do poder não poderia nunca esquecer que ele era o tal meio ao serviço de um fim, sendo esse fim a já referida felicidade individual e o já referido bem comum. Mas Nicolau Maquiavel mudaria este entendimento e com ele a política passou a ser vista como a acção que busca conquistar, exercer e manter o poder. E nestes termos a acção, seja ela qual for, transforma-se em meio e o poder transforma-se em único fim. Convenhamos que a diferença é total. Se a política for a busca da felicidade individual ou comum o combate político é feito essencialmente entre ideias ou ideologias, se a política for a pura busca do poder as ideias e as ideologias não têm qualquer relevo ou interesse. No primeiro caso a discordância promove confronto, que pode ser mais ou menos duro, mas um confronto que evidencia lados distintos que propõem modelos de sociedade também distintos. No segundo caso a divergência só existe porque quem tem poder o quer manter a qualquer custo e quem não tem poder o quer alcançar de qualquer modo. 

Esta questão é a grande questão que se coloca à política na actualidade. Perceber o que separa quem se confronta politicamente é um dos maiores desafios para os eleitores, pelo menos para aqueles eleitores que relativizam os jargões habituais da comunicação política. Na realidade quando há convicções, sejam elas mais conservadoras ou liberais, democratas-cristãs ou socialistas, sabe-se a razão que conduz à disputa. Quando não há convicções, a disputa é feita apenas em nome da vaidade dos protagonistas e dos seus particulares interesses. 

2. Desengane-se porém quem pensa que o combate político é apenas travado entre grupos partidários diferentes. Ele existe dentro dos próprios partidos e nem sempre é feito pelas razões mais nobres. Dir-se-á que neste caso as diferenças ideológicas não existem, porque um democrata-cristão não se inscreverá seguramente num partido que é socialista e um liberal (pelo menos em Portugal) dificilmente se enquadra nas fileiras de um partido que é conservador. Ora se há identificação ideológica entre quem pertence ao mesmo partido político, o que pode justificar a rivalidade dos seus membros? É ela compreensível ou, seguindo a perspectiva maquiavélica, as lutas dentro dos partidos só são lutas pelo poder e nada mais do que o poder? A minha resposta é sim e sim em ambos os casos. Essa luta é perfeitamente compreensível quando estão em causa posicionamentos sobre coligações ou acordos com outros partidos, quando estão em causa entendimentos sobre o modo como uma determinada ideia pode ser aplicada ou até quando estão em causa interpretações sobre o que significa ser social democrata, socialista ou democrata cristão. Mas também pode dar-se o caso dessas lutas serem lutas exclusivamente pelo domínio do poder partidário, para através dele se alcançar o domínio do poder da administração do Estado, seja essa administração local, regional ou nacional. E este ponto é muito importante para entendermos o que motiva as movimentações dentro dos partidos, principalmente quando temos um sistema político que lhes atribui o quase monopólio da vida política. Se é verdade que muitas dessas movimentações são justificadas em nome de causas maiores, há também movimentações ou contra movimentações que são exclusivamente determinadas pelo poder e pelo benefício que dele advém. Como em tudo também a luta política, ou não fosse ela uma luta de humanos, tem como protagonistas pessoas melhores e pessoas piores, pessoas de bem e pessoas de mal. É assim, sempre foi assim e sempre assim será, pelo que importa compreender para lá do que nos é dito e para lá do que nos é mostrado.

3. E já que falamos de política, uma nota final para lembrar um livro do Professor Adriano Moreira, intitulado “Tempo de Vésperas”. Nesse livro, considerado por muitos como um livro de alertas sobre as contradições no final do Estado Novo, Adriano Moreira diz a dado passo o seguinte: “AS IDEIAS NUNCA MORREM. Para bem ou para mal, é assim. Os homens passam. Frustrados ou contentes. Num caso e noutro, com razão ou sem ela. Mas as ideias duram. Independentes dos semeadores. Caminhando fortes a criar adeptos”. Esta mensagem, que tanto pode ser vista como um sinal de contínua esperança para quem acredita e espera por outro tempo, como um título de indisfarçável insignificância atribuído a quem se julga gigante mas nunca deixou de ser um anão, é uma mensagem de permanente defesa da política como Ideia e de uma Ideia que vive para além de quem a proclama. 

Manuel Monteiro

Manuel Monteiro

6 março 2026