twitter

OS DIAS DA SEMANA Os “iscos de raiva”, outra “palavra do ano”

 


 

 


 


 

“Apagão” é a palavra do ano em Portugal, como na terça-feira se ficou a saber pela Porto Editora e pela Infopédia, as promotoras da iniciativa que, desde 2009, elege o termo que melhor define cada ano. A opção, que evoca a falha elétrica que deixou Portugal e Espanha às escuras no dia 28 de Abril, não deixa de ser compreensível, mas a palavra do ano inglesa escolhida pelo dicionário Oxford, também agora divulgada, corresponde melhor ao espírito do tempo: “Rage bait” [1].

A palavra – a expressão, para se ser exacto – que se pode traduzir por “isco de raiva” é, segundo o dicionário Oxford, um “conteúdo on-line deliberadamente criado para provocar raiva ou indignação por ser frustrante, provocatório ou ofensivo, geralmente postado para aumentar o tráfego ou engajamento em relação a uma página web ou a uma conta de rede social específica”.

Se, inicialmente, “rage bait” foi usado a propósito de conflitos de trânsito, designadamente quando um condutor enervado faz sinais de luzes ao condutor da frente para que ele se desvie para poder ser ultrapassado, agora a raiva também se encontra noutros lados. Casper Grathwohl, presidente da Oxford Languages, considera que a circunstância de a expressão “isco de raiva” existir e de o seu uso ter aumentado significa que estamos cada vez mais conscientes das técnicas de manipulação que nos podem afectar quando estamos on-line. E se essa consciência for globalmente escassa, a escolha de “isco de raiva” como palavra do ano contribuirá para a desenvolver.

Depois de se ter generalizado o uso de “click bait”, o isco presente num título que procura atiçar a curiosidade, prometendo a sua satisfação se se clicar para aceder a um conteúdo on-line, um texto ou um vídeo, eis que surge uma mudança da natureza do isco. Na disputa pela atenção, em vez dos apelos à curiosidade, surgem os incentivos à fúria e à polarização.

Casper Grathwohl observa que, enquanto a escolha do ano passado, “deterioração cerebral” (“brain rot”), olhou para o desgaste mental provocado pelo gesto de fazer deslizar interminavelmente os ecrãs dos smartphones, este ano, o “isco da raiva” denuncia a existência de “conteúdos propositadamente criados para provocar indignação e gerar cliques”. Assim se forma “um forte círculo vicioso com a indignação a desencadear engajamento, que é amplificado pelos algoritmos, criando uma exposição permanente que nos esgota mentalmente”. As duas palavras “não definem apenas tendências; elas revelam de que modo as plataformas digitais estão a remodelar o nosso pensamento e o nosso comportamento”.

Os termos assinalados sinalizam distintos modos que, com enorme eficácia, são usados no universo digital para expropriar a atenção de cada um, com severas consequências quer para a saúde mental, quer para a coesão social.

A circunstância de as redes sociais recompensarem a indignação e a raiva não foi algo que se tivesse descoberto recentemente. Há vários anos que se sabe – a partir, designadamente, de diversas investigações académicas – que é o próprio modelo de negócio das redes sociais que fomenta esses sentimentos. Os caminhos das nossas sociedades estão, portanto, a ser influenciados ou determinados por gigantescas empresas de tecnologia.

É necessário não morder iscos, particularmente “iscos de raiva” como os que estão a ser manipulados hoje, sobretudo por uma extrema-direita global que constantemente se mostra pior do que aquilo que diz combater. Morder os iscos de ódio é deixar-se convencer que algo melhor se pode gerar com o pior de cada um.


 


 

[1] “The Oxford Word of the Year 2025 is rage bait”. Disponível em: https://corp.oup.com/news/the-oxford-word-of-the-year-2025-is-rage-bait/


 

Eduardo Jorge Madureira Lopes

Eduardo Jorge Madureira Lopes

7 dezembro 2025