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Núncio apostólico exorta cristãos a integrar o perdão na vida quotidiana

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Fotografia Diana Carvalho

Jorge Oliveira

Jornalista

Publicado em 03 de abril de 2026, às 21:32

D. Andrés Carrascosa Coso presidiu à celebração da Morte do Senhor, na Sé Primaz de Braga

D. Andrés Carrascosa Coso exortou, hoje, os cristãos a integrarem o perdão nas suas vidas como uma das grandes “pérolas” do cristianismo, durante a celebração da Morte do Senhor a que presidiu na Sé Primaz de Braga.

Perante uma assembleia numerosa que encheu por completo a catedral, o representante da Santa Sé em Portugal traçou um paralelismo entre a Paixão de Jesus e o sofrimento humano, recordando que todos enfrentam momentos de dor, como doenças, traições, perdas ou ofensas. 

«Devemos transformar essas situações em pérolas, como fez Jesus, seja na família, entre amigos ou mesmo entre desconhecidos», afirmou.

Questionando os fiéis sobre a forma como reagem perante a ofensa, o núncio alertou para o perigo de seguirem caminhos de ódio, ira ou vingança. 
Na sua reflexão, sublinhou que Cristo deu exemplo ao gerar “pérolas” de perdão, ciência e amor, convidando os cristãos a ultrapassarem a frustração e o ressentimento para viverem de forma renovada.

Na sua reflexão, o celebrante destacou ainda a importância de acolher Maria, a Mãe de Jesus, na vida pessoal, à semelhança do apóstolo João, afirmando que esse gesto traz consolo nos momentos de maior sofrimento. 

«Se levarmos Maria para casa teremos outra capacidade de reagir diante das dificuldades, da doença ou da traição», disse.

D. Andrés Carrascosa Coso sugeriu ainda seguir uma tradição que se vive na sua terra natal – Cuenca, em Espanha – onde durante o dia de Sexta-feira Santa os fiéis vão à ermida de Nossa Senhora das Angústias, padroeira da diocese, expressar os seus pêsames a Maria.

“Durante o tempo de oração diante da cruz, aqui ou em casa, falem com Maria, dêem-lhe os pêsames, falem com ela sobre o Seu filho, partilhem com ela todo o bem que Jesus tem feito nas vossas vidas»,  apelou, considerando este gesto uma das formas «mais bonitas» de viver o Sábado Santo.

Na sua primeira celebração da Semana Santa em Portugal, o núncio apostólico destacou ainda a importância da Eucaristia e desafiou os fiéis a levarem para o mundo as atitudes de Jesus. 

«Temos de ser Eucaristia para um mundo que não acredita, levando o amor de Deus, começando pela família», apelou.

A celebração da Morte do Senhor, à hora a que Jesus expirou na  cruz no monte do Calvário, foi marcada por profundo recolhimento e silêncio, iniciando com a Liturgia da Palavra que conduz ao mistério pascal. 

D. Andrés Carrascosa Coso lembrou que a morte de Jesus não foi por uma casualidade, mas parte de um desígnio de Deus anunciado 500 anos antes, segundo as escrituras.

«Foi pelas nossas feridas e pelos nossos pecados que Ele sofreu na cruz, e pelas Suas feridas nós fomos curados», afirmou, destacando o mistério do amor de Deus. 

A Sexta-feira Santa é um dos dias mais marcantes para os cristãos, pois, disse o núncio, permite «tocar com a mão o amor de Deus» através da contemplação da cruz.

Este ano, o momento da solene adoração da Cruz, após a Oração Universal, foi mais prolongado, já que todos os fiéis se aproximaram de junto do altar para se ajoelhar e adorar o Senhor. 

«Vou muito feliz e agradecido por esta oportunidade»

No final da Procissão Teofórica do Enterro do Senhor e antes da bênção final, o Núncio Apostólico em Portugal manifestou particular satisfação pelo momento da adoração da cruz, em que todos os fiéis tiverem oportunidade de beijar a imagem Cristo morto. 

«Custou tempo, o tempo de cada um de nós, e isso tem valor», afirmou.

Depois de agradecer a presença de todos, de forma particular ao coro pela qualidade que demonstrou na solenização das celebrações,  D. Andrés Carrascosa Coso aproveitou para se despedir de Braga, já que amanhã regressa a Lisboa.

«Vou muito feliz por esta oportunidade. Mais uma vez obrigado D. José pela insistência», partilhou. 

No início da celebração, o núncio explicou que a sua presença nas celebrações em Braga simboliza a proximidade do Papa e reconhece a importância histórica e actual da arquidiocese, que descreveu como uma comunidade viva.

A procissão Procissão Teofórica do Enterro do Senhor, realizada segundo o rito bracarense após a celebração, é um momento de forte carga simbólica, concluindo a celebração que faz memória da morte de Jesus Cristo.

A imagem de Jesus morto na cruz é colocada dentro de um esquife (urna), coberto por um manto negro, que é levado pelas naves da Catedral até uma das capelas da Sé, onde fica aos pés da Senhora da Soledade para veneração.

A urna é carregada aos ombros, sob um pálio, por membros da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém, abrindo a procissão a Cruz e lanternas.  Os acompanhantes cobrem o rosto em sinal de luto.

Tomaram parte da procissão o Núncio Apostólico em Portugal, o Arcebispo Metropolita de Braga, bem como membros do Cabido,  sacerdotes, acólitos  e  irmãos da Misericórdia de Braga, que são convocados para este ato. 

Com este cerimonial pretende-se significar «o silêncio de Jesus na sepultura como oferta contínua da vida e do amor». 

O rito da Procissão Teofórica insere-se numa tradição medieval associada aos chamados ritos da “depositio” (deposição) e terá sido introduzido na Sé de Braga no século XVI, estando referenciado na versão do Rito Bracarenses de 1558, mantendo viva uma herança litúrgica e cultural secular.