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Não se deixe que o respeito ande pelas ruas da amargura

Não se pode partir do princípio que “são todos iguais” os que andam na política. Nem que os partidos “são todos iguais”. Há quem se comporta com responsabilidade, quem dignifica a actividade política, quem tenha vergonha na cara e quem não tenha as qualidades que o povo deseja para o representar. Ter responsabilidade pode significar, simplesmente, pedir para sair. Às vezes, o povo engana-se, depois emenda a mão, outras vezes, deita as mãos à cabeça e não sabe o que há-de fazer. Em qualquer caso, o povo é soberano, e costuma dizer-se que decide bem porque sabe o que faz. Sobre esta última proposição, tenho algumas dúvidas. Mas, o descrente sou eu e nem sequer tenho a certeza se alguém me acompanha, ainda que, felizmente, não seja cego nem surdo.

Queria falar hoje de respeito e deu-me para começar assim. Acho que tem tudo a ver, mas não prometo nada, pois posso enganar-me e ter de cortar. A ver vamos. Para já, o respeito tem a ver com cada um, com cada indivíduo, seja quem for e qualquer que seja a profissão que tenha. Cada um deve respeitar-se, ser coerente com os seus princípios e valores e ter a consciência tranquila – de verdade, não apenas nas declarações que possa fazer - quando decide sobre os seus actos, desde os mais simples aos mais exigentes. Se tal não acontecer, dificilmente, para não dizer de todo impossível, a pessoa respeitará as demais. A democracia fica em causa quando uns não respeitam os outros, quando alguns dos seus comportamentos deixam dúvidas. Tirar consequências, nem que seja para facilitar o todo, é algo que exige abnegação, responsabilidade e respeito. O melhor seria sempre estancar o problema com uma conversa “a sós” por iniciativa própria, ainda que as dúvidas possam não estar suficientemente fundamentadas. É, de longe, preferível e saudável que se antecipem comportamentos de desprendimento e de rigor e que se evitem discussões que se eternizam e que só servem, no caso da política, o jogo partidário, mas que acabam por trair a confiança de toda uma população. Quando isso não acontece, a descredibilização tende a generalizar-se e com ela a fragilidade de um regime. Temos assistido, no Mundo e na Europa, em particular, a movimentos que começam a ocupar o espaço das actuais democracias e ainda que tal tendência não se manifeste de forma evidente no nosso país, a aceitação, quase automática, de que “são todos iguais”, facilita o processo, porque as pessoas, quando deixam de acreditar nas suas referências, procuram refúgio em protagonistas que asseguram mais credibilidade e previsibilidade. O respeito também pode existir na política. O respeito é o vínculo que une uns e outros e faz-se de confiança. É chamar à razão quem anda distraído, ainda que preocupado. Quando a confiança não existe ou desaparece, a virtude vai-se, é a vida de relações que fica em causa. E o que é o Governo de um país senão um conjunto de relações baseadas na confiança entre cidadãos e os que os governam? Não se pode aceitar, por isso, a normalização de certos comportamentos que descredibilizam essa confiança, aliás, sempre necessária. Os responsáveis não o podem esquecer, nem quando são eles que estão em causa, nem quando são outros sob a sua alçada que fazem perigar, ainda que inconscientemente ou convencidos da sua verdade, a credibilidade do próprio Governo, com maioria de razão quando a conversa já vai longa, já não é “a sós”, mas se estende para tudo o que é lado; quando já não é uma conversa amena em que se discute um ou outro aspecto de menor relevância, mas uma conversa acesa que põe em causa a relação principal, que não é entre chefe e ajudante, mas entre um povo e o chefe de Governo. Não se deixe que o respeito ande pelas ruas da amargura. Aqui chegado, entendo que não tenho que cortar o que no início não tinha a certeza de se ajustar. Mas, há outras faltas de respeito que aqui, hoje, já não cabem.

Luís Martins

Luís Martins

8 setembro 2026