Ainda no liceu Sá de Miranda em Braga, na Universidade de Coimbra e em Angola, fiz parte de equipas de futebol, onde o desporto era uma forma de convívio, interação comunitária e as pessoas viviam momentos de proximidade, com sentido solidário e espírito de alegria, constituindo famílias desportivas objetivas e com valores.
Ao tempo o futebol e outros desportos, já eram transversais ao país e outros continentes, com grande projeção e com civismo e comportamentos diferentes das claques. Era uma forma de os jovens viverem bons momentos, seguindo o futebol como atividade profissional ou amadora, com espírito associativo e transmitindo formas de estar e evoluir no desporto, em diversas áreas, mas principalmente no futebol, com sentido de saber estar e serem o cerne de iniciativas com valores e princípios, seguindo uma convivência fraternal, solidária e de respeito, em encontros intergeracionais.
Quando ingressei na vida académica em Coimbra, 1952-58, tive o privilégio de ser dirigente da Direção Geral da Associação Académica de Coimbra, que abrangia diversas atividades desportivas. A Associação Académica ao tempo, na primeira divisão nacional, tinha como jogadores estudantes universitários de diversos cursos, que eram acolhidos com remunerações adequadas à sua formação, com alojamento, propinas e alimentação, alguns dos quais se tornaram grandes futebolistas e outros deram continuidade à sua formação universitária e jogavam o futebol com modéstia, humanismo e transmitindo um sentido inesquecível do jogador de futebol, tendo havido duas exceções quanto a remunerações, Mário Wilson e Augusto Rocha, ganhavam dez contos, este vindo de Macau, que foi acolhido no Aeroporto da Portela, Lisboa, na viatura do treinador da Académica, Cândido Oliveira, o grande fundador da “A Bola”, conduzida por ele para o receber, assim como também o acompanhei.
Um grande treinador, jornalista de referência nacional, mas com sentido humanista, ajudando jogadores com dificuldades financeiras e assumindo todas as despesas e sem qualquer remuneração da Associação Académica, vindo a falecer em Estocolmo, em 1958, quando ocorreu o Campeonato do Mundo na Suécia, como jornalista da “A Bola”, passando por momentos difíceis, quando conduzia o seu Chevrolet, foi apedrejado por trabalhadores em Paris, confundido a sua viatura com a de um grande empresário parisiense, tendo prosseguido a viagem de avião para Estocolmo.
A Académica passou por um período complexo ao tempo do Decreto-Lei Nº 40900, de 12 de Dezembro de 1956, que cerceava os direitos da Academia de Coimbra, quer na parte universitária, quer na desportiva, procurando enquadrar na Mocidade Portuguesa a Academia e a Académica, que não poderia participar em provas federadas, passando a ter atividades desportivas exclusivamente em competições escolares, o que foi revertido, posteriormente, devido a uma grande contestação da Academia de Coimbra a nível nacional, e com apoio da Federação Nacional de Futebol.
Nos outros clubes o futebol também era diferente, não como hoje, transformando-se alguns em empresas, com caraterísticas totalmente diferentes, quer na constituição associativa, quer no mercado e nos vencimentos dos jogadores, na intermediação e, principalmente, no comportamento das claques, na interferência dos dirigentes, nas influências diversificadas, embora não aconteça em todos os clubes, principalmente, nos que mantêm o associativismo e alguns com amadorismo e com dádiva dos seus dirigentes.
Infelizmente são atacados dirigentes que foram referência no desporto nacional, na arbitragem, por certa comunicação social, devassando a vida pessoal através de pesquisas, que nos reporta ao tempo do salazarismo, o que desvaloriza um desporto de nobreza na sua origem e que tem dado grande impacto a Portugal, através de competições nacionais ou internacionais ou de grandes jogadores e treinadores, que percorrem continentes e alguns, nos países de atuação, deixam marcas incontornáveis, apesar de Portugal ser um país pequeno, mas que podíamos ser grandes se tivéssemos aproveitado os recursos das colónicas, como fez a maioria dos países colonizadores.
Espera-se que o futebol embora, face a evolução da sociedade, da economia e do empreendedorismo empresarial, continue a prosseguir a sua missão, com princípios e valores, através dos clubes, dos dirigentes, dos sócios e dos espectadores.
É de realçar um facto recente ligado ao Presidente da FIFA, Gianni Infantino, que queria transformar a FIFA numa empresa aberta a investidores privados, resultante de uma promiscuidade entre Infantino e Trump, destacando a atribuição do Prémio da Paz, concedido pela FIFA a Trump, poucas semanas antes de os Estados Unidos invadirem a Venezuela.
Ainda bem que a UEFA tomou uma posição firme, como um dirigente da FIFA se demitiu, assim como Portugal e muitos países e jogadores de futebol, como Luís Figo, e é fundamental que prossigam o caminho da nobreza do futebol, pois o atual Presidente da FIFA está a seguir um caminho errado, tornando o futebol volúvel a interesses oligárquicos, como pretendia Trump.