Há quase três mil anos, o poeta Hesíodo já reconhecia: «A má fama é muito fácil de levantar, penosa de suportar e difícil de eliminar».
Seminalmente, fama está conectada com língua. O vocábulo deriva do verbo «phemi», que significa falar. E falar, sendo uma atividade frequente, nem sempre protege a verdade e o bom nome de muita gente.
«Fama» era uma divindade influente. Filha de Gaia e irmã dos gigantes Céos e Encélado, vivia num palácio de bronze.
Este tinha milhares de orifícios, pelos quais «Fama» capturava tudo o que se dizia, por mais impercetível que fosse. Na representação clássica, ela aparece com múltiplos olhos e ouvidos e com muitas bocas para não parar de falar.
Na mitologia romana, «Fama» circulava dia e noite sem jamais se calar. Deslumbrava-se nos lugares altos pois era daí que reproduzia todo o tipo de novidades, fossem elas verdadeiras ou falsas.
Segundo Virgílio, a fama é o pior mal que existe por causa da sua sofreguidão e da sua astúcia persuasiva. Na «Eneida», descreve-a como veloz que tanto informa como deforma, que tanto esclarece como engana.
Nas célebres «Etimologias», Santo Isidoro de Sevilha alerta que a fama afeta facilmente a reputação.
A fama surge, então, como uma combinação entre notícia e boato, propagando-se de modo escorregadio e sinuoso.
Como distinguir a verdadeira notícia de um mero boato se as palavras que transportam ambos se movimentam ardilosamente como serpentes?
Vadiando de boca em boca, as más notícias têm um poder de atração irresistível, cativando ouvintes e leitores em série.
Por conseguinte, além de ser incerta e pouco confiável, a fama tem um potencial enorme de trasladar a mentira para toda a parte.
Tanta fome de fama porquê? A fama é tremendamente movediça: tanto presta um precioso serviço à verdade como tem perícia de sobra para a distorcer.
Se uma fama for má, é provável que nunca se extinga completamente. É uma voz alada que tanto mais rapidamente se move quanto mais sórdido é o que faz deslocar.
Os arautos de uma fama – captou sagazmente Marcel Detienne – «são amas de leite tagarelas e sussurros maliciosos quando os rostos se viram».
Uma fama pode surgir embrulhada num «ouvi dizer que», num «dizem que».
Acontece que esta «falação à boca pequena» vai-se amplificando e despudorando. Más famas ganham cor nos ecrãs e pegadas eletrizantes nas redes sociais.
A credulidade é assustadora. A propensão é para dar crédito a tudo o que manche a honra e macule a dignidade.
Deliramos morbidamente com rumores e com boatos que tingem a integridade dos outros. E se formos nós os (a)tingidos?
Pertinente é, portanto, o apelo do Papa Leão XIV ao jejum de palavras, sobretudo daquelas que «dizem mal de quem está ausente e não se pode defender».
É verdade que o silêncio não difunde. Mas, pelo menos, não difama. Não lhe devemos estar gratos também por isso?