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Via necessária ou prioritária?

A Igreja continua a valorizar o recolhimento e a fomentar o silêncio. 

Sucede que, em contramão, muitos persistem em alegar que a missão resulta melhor com movimentação e ruído.



 

O Código de Direito Canónico (cânon 603) reconhece a grandeza da «vida eremítica». Ela mantém-se como uma via pela qual os fiéis – através do silêncio e da oração – consagram a sua vida ao louvor de Deus e à salvação do mundo.

Na hora tormentosa que o mundo atravessa, não será que esta via necessária é a via prioritária para a missão?



 

As nossas experiências de encontro (valiosíssimas, aliás) reverter-se-ão sempre em experiências de encontro com Deus?

Estaremos a transportar o silêncio dos espaços sagrados para o mundo ou não arriscaremos trazer o ruído do mundo para os espaços sagrados? Estaremos a constituir a alternativa ou não seremos tão-somente redundância?



 

Tenhamos presente que, em tempos de crise, foi dos eremitérios silenciosos que vieram grandes abanões de consciências e profundas interpelações para a Igreja e para a humanidade.

Paulo de Tebas e Antão do Deserto foram uma provocação para a sua época. Houve mosteiros onde os monges passavam a vida inteira na sua cela despojada. 



 

Inspirado na regra beneditina, São Romualdo (século XI) priorizou o encontro contínuo com Deus. O silêncio foi, para ele, uma constante.

Na Ordem que fundou – chamada Camaldulense –, aspirava-se ao perpétuo recolhimento. Havia quem não dissesse uma única palavra durante 40 dias – ou até durante 100 dias – seguidos. 


 


 

Mais do que claustros para o convívio, o que predominava na obra de São Romualdo eram os desertos entre as celas. 

Para ele, tudo devia favorecer o encontro permanente com Deus.


 

No século XIII, foram os leigos — entre os quais muitas senhoras — a promover o resgate da forma primitiva da Igreja («primitivae ecclesiae forma»).

Surgiram então bastantes «eremitas peregrinos», que perambulavam por toda a parte com uma vida contemplativa e silenciosa.


 

E diga-se que a sua «liderança carismática» foi bem sucedida. Muitas pessoas (solteiros, viúvos e casados) trancavam-se voluntariamente em reclusórios situados quer nas cidades, quer nos campos.

Santa Catarina de Sena apenas se retirava da cela para ir à igreja. E tomou a sintomática decisão de chorar enquanto comia, oferecendo a Deus as suas lágrimas durante as refeições.


 

A esta luz, os retiros espirituais deviam passar do modelo «lectio» (lição) para o modelo «oratio» (oração). 

Não seriam a ser as palavras a ser entrecortadas por instantes de silêncio, mas haveria de ser o silêncio a ser intervalado com as palavras das celebrações comunitárias. Qualquer retiro deveria desabrochar em eremitério.


 

É esta a aura do silêncio. Não corta, integra e alarga. Não é inoperante: alenta, alimenta, congrega e arrasta. Desegoíza e estabiliza. Detona toda a ansiedade.

Quando o silêncio irrompe, que ninguém o interrompa. A agenda não é o principal. O programa não é opção nossa. Tudo emerge d’Ele e no tempo d’Ele!

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

4 agosto 2026