O sábio filho de Sirac, chamado Yeshua, consignou há muitos séculos que «a soberba é o princípio de todo o pecado» (Eclo 10, 13).
E a atualidade tem-se encarregado de depor irrefutavelmente acerca da validade – e da pertinência – deste veredito axiomático.
Não foi por acidente que teólogos como Gregório Magno e Tomás de Aquino se abstiveram de listar a soberba no elenco dos pecados capitais.
É que a soberba não é um pecado que possa ser alocado ao lado dos outros. É um pecado fora de série, antes da série. Mais do que um pecado capital, tratar-se-á de um pecado «megacapital».
Além de provocar toda a desordem, ela projeta-se nas palavras e nas ações ditadas pela torrente destemperada do «eu».
A soberba corresponderá à «síndrome de hýbris» que, segundo David Owen, é um transtorno suscitado pela demasia de poder.
A «hýbris» caracteriza-se pela autoestima em excesso, pelo desprezo da opinião contrária, pela perda de noção da realidade e por comportamentos impetuosos e obsessivos.
Acaba por tipificar uma espécie de «messianismo narcísico», hiperbolizando competências que não se possuem sem admitir dissonâncias ou desalinhamentos.
Não foi certamente por humildade — o maior antídoto da soberba e da equivalente «hýbris» — que o dirigente de uma potência mundial vituperou, entre outros agravos, Leão XIV por (supostamente) ser «fraco».
É natural que não tenha apreciado os assertivos apelos do Santo Padre aos intervenientes nas guerras: «Parai; sentai-vos à mesa do diálogo e da mediação e não à mesa onde se planeia o rearmamento».
Acontece que das palavras o referido líder passou rapidamente aos atos, isto é, às represálias.
O seu governo cancelou um contrato de 11 milhões de dólares com a organização «Catholic Charities» que cuida de crianças migrantes que entram sozinhas no país a que preside.
Serenamente, o Santo Padre reafirmou o prosseguimento da sua missão de anunciar o Evangelho d’Aquele que veio trazer a «paz desarmante e desarmada».
Acresce que, embora involuntariamente, o referido responsável político acabou por elogiar o Papa ao apodá-lo de «fraco».
É que a nossa fragilidade, segundo São Paulo, é a via de entrada da força pacificadora de Cristo.
Daí que o Apóstolo se gloriasse — e de boa vontade — das suas fraquezas pois dessa forma sentia-se habitado pelo «poder de Cristo» (2Cor 12, 9).
Por tal motivo comprazia-se «nas afrontas, nos contratempos, nas perseguições e nas angústias por amor de Cristo. Quando estou fraco é que sou forte» (2Cor 12, 10).
Deixem, então, o Papa manter a força da sua «fraqueza» até que aqueles que insistem na fraqueza da sua (presumida) «força» desistam. Que conquistas ostentam? Que problemas resolvem?
O caminho nunca pode ser fortificar na guerra, mas enfraquecer as pulsões para os conflitos.
Em suma, benditos todos os «fracos». Porque não são eles que ameaçam a terra ou amedrontam os homens!