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O amor da Pátria em crise

Quando as bombas atroam no Médio Oriente e na Ucrânia, os europeus gemem com os preços do petróleo e consequências na carestia de vida, após as calamidades e tempestades, que nos atingiram com gravidade, discute-se a contribuição da Europa para a NATO e o serviço militar, voluntário ou obrigatório, dos jovens para a defesa. Sim que deve ser contribuído por uns e por outros.

De facto, num país de amanteigados e “copinhos de leite” depois da revolução de Abril, num Estado que tudo tem feito pela promoção e desenvolvimento da massa cinzenta dos seus filhos – não sei se para os preparar para o desenvolvimento e serviço ao país, se para exportar os mais qualificados para o estrangeiro-seria bom repensar as escolas, para saber em que sentido patriótico são educados os filhos. Isso é muito importante até porque a obra Os Lusíadas, como bíblia de nacionalismo, deixou de ser estudada nas escolas, e os soldados/combatentes da guerra colonial foram praticamente esquecidos ou menosprezados.

Por isso, lembrar a Ilíada e Odisseia de Homero, que são perfeitos retratos, que alimentaram a alma dos gregos e ficaram como exemplos para imitar, tanto na arte como na vida, e modelaram a cultura ocidental à qual pertencemos. Talvez hoje sejam padrões esquecidos nas nossas escolas e universidades, com uma noética renovada, alérgicas aos estudos clássicos do grego e latim. Seja como for, não resisto a citar a Antígona, de Sófocles( 440 ), tragédia certamente anterior ao Rei Édipo, cujo assunto é de interesse actual:

Após a morte do pai Édipo, Antígona e Ismena assistiram em Tebas, à luta travada entre seus dois irmãos Polinices e Etéocles a favor da pátria, que em duelo fratricida se mataram. Para cúmulo, Creonte ordenou que se desse sepultura ao cadáver de Etéocles, por ter combatido gloriosamente pela pátria, e se expusesse às aves de rapina o corpo de Polinices, que morrera como rebelde.

Para os Gregos, deixar um cadáver insepulto, era fazer andar a alma errante cem anos à beira do Estígio, e violar os direitos das divindades infernais. (Ainda hoje existem tais reminiscências entre nós…) Por isso, Antígona, depois de discutir o caso com Ismena, resolve dar sozinha sepultura ao corpo do seu irmão:” Faz como entenderes, – disse a sua irmã – a ele sepultá-lo-ei eu. É uma honra para mim morrer cumprindo tal dever. Junto dele, jazerei eu, sua querida irmã; o meu crime será um acto piedoso, já que é mais longo o tempo em que devo agradar aos que estão no além, do que aos que estão aqui. É lá que terei morada perpétua. Mas tu, se assim te parece, despreza as leis sagradas dos deuses”.

Movida por religioso entusiasmo e piedade foi cobrir de terra o cadáver de Polinices. Mas, surpreendida em flagrante delito, é conduzida pelo guarda à presença de Creonte, diante do qual defende intrepidamente a legitimidade do acto que praticou, num gesto de reconhecimento e valor pátrio, fraternal e religioso, pelo seu irmão (Cf António Freire - O Teatro Grego, p237). E diz mais adiante:

“Entendi, Creonte, que os teus éditos não tinham poder para induzir um mortal a infringir os decretos divinos, não escritos, mas imutáveis (...)

“Se tiver de morrer antes do tempo, considero isso uma vantagem. Quem vive como eu, no meio de tantas calamidades, como não há-de considerar a morte um benefício”?

Consciente de que cumprira o seu dever e estava no caminho da verdade, não teme uma discussão acesa com o tirano de Tebas. Exemplo de coragem e de convicções intrépidas…

O teatro grego pretendia traduzir as relações, por vezes demasiado horizontais, entre os deuses e os homens, de forma pedagógica e relacional, embora, também cobrido-os com as mesmas virtudes e defeitos humanos.Implicitamente havia um respeito sagrado pelas leis e ordens divinas. E hoje?

Quais as relações com Deus e mesmo com os homens?Algumas vezes, somos solícitos e espectaculares na morte com muitas flores e memórias, mas apunhalamo-nos em vida, tanto cidadãos como políticos, e sem os valores a que Pátria nos incita. 

Exigimos tudo, mas não damos nada. Queixamo-nos depois dos impostos que nos massacram para alimentar a ociosidade e oportunismo de alguns sem amor ao país que se empobreceu para que fossem algo mais. Enfim…

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Rosas de Assis

26 março 2026