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Por Entre Linhas e Ideias

Porque dizemos, afinal, que algo é “um grande 31”? Caros leitores do Diário do Minho, ao chegar a esta crónica número 31 permitam-me partilhar convosco uma breve nota, anunciando que chegamos às 31 crónicas e que serão brevemente publicadas em livro, reunindo as reflexões que, semana após semana, fui tendo o gosto de partilhar convosco, procurando pensar o nosso tempo com alguma serenidade. Será um livro intitulado 31, crónicas para quem ainda ousa pensar, inspirado naquele apelo de Kant, sapere aude, ousa pensar, que continua, acredito, a ser um dos maiores desafios do nosso tempo.

Mas voltemos ao 31 e ao que ele significa. A origem da expressão não é totalmente clara, no entanto existem algumas explicações que nos ajudam a perceber como um número passou a representar o caos. Há quem diga que vem do Regimento de Infantaria número 31, conhecido pela indisciplina, outros recordam a Revolta de 31 de janeiro, no Porto, marcada pela agitação política, e há ainda quem associe o número ao fim do mês, quando as contas se acumulam e a tranquilidade parece desaparecer. Seja qual for a origem, fica a impressão de que não sabemos viver bem com o que não compreendemos.

Essa necessidade não é nova e acompanha-nos desde as primeiras tentativas de compreender o mundo. Na Grécia antiga, Hesíodo, na sua obra Teogonia, falava do Chaos como o princípio de tudo, não como simples confusão, mas como um abismo inicial onde ainda nada tinha forma. Também no Génesis encontramos essa ideia, quando se diz que a terra era informe e vazia, sugerindo que antes da ordem há sempre um momento de incerteza.

É também a partir dessa incerteza que surge a razão, como tentativa de dar sentido ao que parece disperso. Heraclito lembrava que tudo flui, sublinhando que a realidade está em constante mudança, mas afirmava também que existe um logos comum, um princípio que atravessa essa mudança e que pode ser compreendido por quem se dispõe a pensar.

Se olharmos à nossa volta, percebemos facilmente como esta tensão entre ordem e caos continua presente. Vivemos num tempo politicamente instável, socialmente fragmentado e marcado por um excesso de informação que muitas vezes não se traduz em compreensão. Com frequência reage-se mais do que se pensa e opina-se mais do que se compreende, criando uma sensação de confusão, como se o mundo se tivesse tornado, em muitos momentos, um grande 31. Como lembra Edgar Morin, “a ordem e a desordem não se excluem, antes coexistem e organizam-se mutuamente”.

A literatura também nos tem mostrado essa desorientação. Muitas vezes apresento, nas palestras que faço pelas escolas do país, o exemplo de O Senhor das Moscas, de William Golding, onde um grupo de jovens, afastado da ordem social, revela rapidamente como a ausência de regras e de referências pode conduzir ao caos, lembrando-nos que a ordem não é um dado adquirido, mas algo que precisa de ser constantemente construído.

É por isso que o logos continua a ser necessário, não como resposta definitiva, mas como esforço contínuo de compreensão, como tentativa de ordenar e de não desistir de pensar, mesmo quando tudo parece confuso, e talvez não seja por acaso que, como lembra Bill Gates, as profissões menos afetadas pela inteligência artificial sejam precisamente aquelas que exigem pensamento crítico, discernimento e capacidade de decisão.

Semana após semana, estas 31 crónicas foram precisamente isso, um conjunto de reflexões ético-filosóficas que procuraram introduzir alguma clareza no meio da complexidade e que agora serão reunidas em livro, para que os leitores as possam reler com tempo, atenção e talvez com um novo olhar.

E talvez seja essa a pergunta que fica, depois de trinta e uma semanas a pensar em conjunto:


 

- Ainda encontramos espaço para pensar ou já nos habituámos à confusão?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

25 março 2026