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Bons professores

Na ausência de medidas necessárias e urgentes, vivemos com uma escassez cada vez mais preocupante e ímpar de professores; e esta problemática faz-nos recuar às décadas de cinquenta e sessenta do século passado, quando se recorreu ao recrutamento de pessoas sem habilitações específicas para o exercício docente, mormente no ensino primário, atual 1.º Ciclo, apelidadas de regentes.

E esta situação resultante da ausência de investimento na Educação, teve um assinalável recuo nos inícios da década de setenta, com Marcelo Caetano como primeiro-ministro e Veiga Simão como ministro da Educação; e é, então, que se incrementa uma aposta séria numa reforma da organização escolar, curricular e de formação de professores.

Foi, por exemplo, o tempo de criação e alargamento dos ciclos de ensino e reestruturação das Escolas do Magistério, das Escolas Industriais e Comerciais e das Universidades; e esta dinâmica reformista deu um impulso assinalável à formação de professores e, consequentemente, ao funcionamento e procura das escolas.

Pois bem, com o 25 de abril de 1974, uma nova era se desenha e instala no ensino do nosso país onde os novos métodos, os novos currículos e uma rigorosa formação de professores preconizam uma reviravolta nas nossas escolas; e com estes novos ventos de mudança facilmente consigo se arrastam desvios e conturbações vários, que derivam de preconceitos e ideologias que se instalam e avançam.

Então, aqui reside a problemática que assiste à formação dos professores e a pergunta emergente sobre qual o conceito de um bom professor para esta nova realidade; e, com o tempo e os desvios constantes na ordem cultural e política nacional, as escolas passam a carregar problemas constantes de estabilidade organizacional e sucesso educativo que se prolongam por demasiado tempo, criando nos professores, alunos e encarregados de educação justificadas preocupações e incapacidades para dar o rumo certo às escolas.

Depois, a pergunta certa é: o que é, afinal, um bom professor? Será um doutorado, um licenciado, um mestre, um recém formado ou um docente já no topo da carreira? Difícil é quantificar e qualificar a situação, porque a sua definição depende de múltiplos fatores, quer de ordem pessoal, quer de ordem geral.

Nos meus 36 anos de professor conheci e convivi com bons e maus professores e nem sempre a definição que se pode fazer de mau, de bom ou de razoável professor é certeira; e isto porque depende de múltiplos fatores, sejam culturais e ambientais, sejam pessoais e comunitários.

Todavia, penso que um bom professor não se define nunca pelo diploma que ostenta, mesmo se de elevada valorização; e muitas vezes o bom professor é aquele que sabe estar próximo do aluno, falar a sua linguagem, compreender e aceitar as suas aptidões e a forma de ser e estar; e, mormente, ajudá-lo a crescer em todos os aspetos e dimensões da vida pessoal e escolar e prepará-lo para um futuro de sucesso.

Porém, segundo estudos de opinião e recentes sondagens, a profissão de professor não atrai os jovens por múltiplos fatores a que não são alheios as deslocações que têm de fazer até às escolas, as ausências do lar a que são obrigados, a colocação anualmente em escolas diferentes e, obviamente, o vencimento pouco animador; e ainda a carga burocrática a que é submetido com prejuízo do exercício principal das suas funções docentes.

Ora, nestas circunstâncias e em muitas mais considerações, como pode um professor ser um bom professor? Como pode encarar a sua profissão atribulada pela instabilidade e permanente situação e de mudança de casa e de mochila, ano a ano, às costas? Talvez somente se for um João Semana ou não tenha meios de desenvolver e exercer outra profissão; e, assim, nos confrontamos com uma enorme falta de professores e de alunos sem escola, já para não falarmos na falta, nestas circunstâncias absurdas e inóspitas, de bons professores.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

25 março 2026