Perante tamanha profusão de candidatos às eleições presidenciais, já realizadas, em 18 de janeiro último, inevitável era uma segunda volta para,
definitivamente, escolhermos o novo presidente da Republica; e esta
decisão vai acontecer no próximo dia 8 de fevereiro e esperamos que com o mesmo, senão maior ainda, empenho e dinâmica dos portugueses no acesso às urnas de voto.
Todavia, uma questão me confrange e refrange: o que moveu tantos candidatos à conquista do cargo, espinhoso e responsabilíssimo, de presidente da República? Será que o fervor patriótico eclodiu nos seus peitos ou, pura e simplesmente, mesmo sabendo muitos deles que não seriam eleitos, a necessidade de se tomarem conhecidos e confortados, possivelmente, com um punhado de euros de presença que lhe podiam ser atribuídos, seria suficiente?
Agora num oportuno aparte, houve, em tempos, um dirigente partidário de um pequeno partido que se candidatava, dizia-se na roda de amigos, a todas as eleições legislativas e autárquicas para granjear uns euritos necessários à troca de carro: depois, os tempos político-partidários viraram as voltas ao partido que liderava e saiu de cena definitivamente.
Pois bem, estamos já na reta final da segunda volta das eleições presidenciais (dia oito de fevereiro) com os candidatos António José Seguro e André Ventura em renhido confronto; e todos sabemos e vemos claramente se quisermos ver e saber que a classe política em geral tem perdido, ao longo dos tempos de vida democrática, qualidade, fiabilidade, legitimidade, autenticidade e verdade.
E, se nos dermos ao incómodo de recuar até aos primórdios da Democracia (abril de 1974), facilmente constatamos tal evidência que nos deixa incrédulos, descontentes e desmotivados; e, obviamente, porque a vida democrática requer empenho e afirmação cortantes na sua vivência diária.
Lembro, apenas para ponto da situação e motivo de reflexão, o nome de alguns políticos que nesses primeiros tempos, assaz conturbados e inseguros da nossa aprendizagem democrática, que se revelaram e afirmaram como dedicados lutadores e acérrimos defensores dos princípios e valores da Democracia; e, então, para além de muitos outros, Sá Carneiro, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, Amaro da Costa, Lourdes Pintassilgo, Mota Pinto, Salgado Zenha, António Guterres, Durão Barroso, na minha modesta opinião, para além dos seus legítimos e naturais interesses partidários, e porque ideológicos, souberam lutar em defesa do povo e da Nação, mormente quando estavam em causa desvios, tentativas e oportunidades contrários à nossa idiossincrasia nacional.
Ora, perante a escolha que temos de fazer de cinco em cinco anos do presidente da República, ultimamente, se analisarmos o perfil e desempenho dos anteriores presidentes (Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva — Marcelo Rebelo de Sousa ainda vai ser avaliado), face a certos valores expressos, o saldo ainda é francamente positivo; porém a mão-cheia de candidatos desta última eleição, a meu ver, é uma amostra de declínio e desvio de alguns princípios e valores que devem formar e robustecer a personalidade de qualquer candidato a tão alto cargo institucional.
E se a Democracia, perante os maus tratos de que tem sido vítima, carece de reabilitação, objetivação e afirmação, temos de exigir ao novo presidente que escolhermos um compromisso de honra para com o povo e a Nação e a reafirmação da Democracia, e só assim, se porá cobro à corrupção, à demagogia, ao oportunismo, às falsas promessas, ao populismo, à injustiça social e à prepotência dos mal poderosos contra os mais fracos.
É que ser presidente da República não é tarefa fácil e banal, pois para além de muito mais, o exercício do cargo traça limites, retira liberdade, impõe deveres, obrigações e responsabilidades; e, obviamente, tudo o que o Presidente faz sofre um escrutínio altamente rigoroso, não só em termos políticos como sociais, culturais e morais; por isso, a nossa escolha de Domingo, oito de fevereiro, tem de ser um ato de afirmação, fiabilidade e verdade democráticas; e a não poder ser assim, é preferível o voto branco.
Então, até de hoje a oito.