twitter

Por Entre Linhas e Ideias

Poderíamos viver sem música nos momentos de tragédia e perda? Talvez sim, mas certamente não tão bem. O texto de hoje é, assumidamente, uma breve filosofia do consolo, escrita a pensar nos leitores num tempo difícil, marcado pelas calamidades naturais que assolaram o nosso país nos últimos dias. Quando a realidade nos ultrapassa, a música não resolve nem explica, mas acompanha, ampara e devolve-nos um pouco de serenidade.

Desde a Antiguidade que esta ligação entre música e pensamento se tornou evidente. Na Academia de Platão, a educação incluía lógica, astronomia, poesia e música, porque se acreditava que um espírito completo precisava de harmonia entre ideias e emoções, formando não apenas o intelecto, mas a pessoa como um todo. O mito de Orfeu ilustra bem essa visão antiga, pois dizia-se que o som da sua lira era tão belo que até as árvores se inclinavam para o escutar, como se a própria natureza reconhecesse na música uma força que nos ajuda a compreender-nos melhor.

Assim, não surpreende que vários filósofos se tenham detido a pensar nesta relação, reconhecendo na música algo que vai além do simples entretenimento. Apresento-vos dois filósofos para quem a música ocupou um lugar central no pensamento. Schopenhauer via nela a expressão mais direta da essência do mundo, uma linguagem capaz de dizer o que as palavras não dizem, enquanto Nietzsche levou essa ideia ainda mais longe ao acreditar no poder quase redentor da música de Richard Wagner, mesmo que mais tarde se tenha afastado do compositor. Apesar dessa rutura, nunca abandonou a convicção de que “a vida sem música seria um erro”, e essa paixão ajudou a projetar o seu pensamento para além dos livros, chegando ao espaço público. Não é por acaso que Assim falava Zaratustra, de Richard Strauss, inspirado na sua obra, se tornou música de abertura dos Jogos Olímpicos, mostrando como um ideal filosófico pode chegar a todos através da música.

Não foram apenas os filósofos a perceber o poder do pensamento musical, pois os grandes letristas provaram que uma canção pode dizer mais sobre o mundo e sobre nós do que muitos escritos extensos. António Gedeão lembrou-nos, na voz de Manuel Freire, que “o sonho comanda a vida” e Bob Dylan, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, transformou a música popular num espaço de reflexão crítica sobre a guerra, a injustiça e a liberdade.

Na minha experiência de professor, esta ligação entre música e pensamento sempre foi uma constante. Para falar de justiça, liberdade ou democracia, muitas vezes bastava começar por uma canção, e as letras de Zeca Afonso mostravam bem como a música pode ser instrumento de resistência, denúncia e transformação social, oferecendo também algum alívio em tempos difíceis. Do mesmo modo, lembro-me bem de levar a cassete no gravador para ouvir, na sala de aula, essa canção extraordinária de letra profundamente filosófica, Construção, de Chico Buarque, que permitia discutir a alienação, a desumanização do trabalho e a fragilidade da condição humana, tal como Another Brick in the Wall, dos Pink Floyd, ajudava a questionar o sentido da educação e a liberdade de pensar.

Também o cinema evidencia a forma como a música se cruza com o pensamento e se pode tornar um verdadeiro lugar de consolo quando a realidade é demasiado dura. Em O Pianista, de Roman Polanski, o Noturno em dó sustenido menor, de Chopin, atravessa o filme como símbolo de resistência interior e de humanidade num contexto de perda extrema, lembrando-nos que a música pode preservar dignidade mesmo quando tudo parece ruir. Algo semelhante acontece em Titanic, de James Cameron, onde uma canção fica para sempre ligada à memória da tragédia e ajuda a dar forma à dor, acompanhando a perda sem a apagar. Em ambos os casos, a música não resolve o sofrimento, mas suaviza-o e permite-nos atravessá-lo com algum sentido e serenidade. 

Talvez valha a pena parar um pouco e pensar que, perante as calamidades naturais que atingiram tantas populações, a filosofia e a música continuam a ajudar-nos a enfrentar a tragédia, uma pela reflexão, a outra pela sensibilidade de nos tranquilizar diante do que não podemos controlar. Fica, por isso, um convite aos leitores do Diário do Minho.


 

- Que música vos ajudou a atravessar os momentos mais difíceis?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

4 fevereiro 2026