twitter

Produção de lúpulo é oportunidade de negócio à espera de investidores

Fotografia DM

Luísa Teresa Ribeiro

Chefe de Redação

Publicado em 24 de agosto de 2026, às 21:47

Participantes no Harvest Fest fizeram “vindima cervejeira”.

A produção de lúpulo representa uma oportunidade de negócio, uma vez que a atividade é muito reduzida em Portugal, levando as cervejeiras nacionais a comprar a quase totalidade do produto no mercado externo. A região Minho reúne boas condições para retomar o seu cultivo, reavivando uma cultura que já teve importância no setor agrícola.

A sinalização desta oportunidade de investimento foi sublinhada no âmbito do Harvest Fest, festival de cerveja artesanal que a Cerveja Letra promoveu este fim de semana, em Vila Verde. Cumprindo a tradição de mostrar o ciclo da cerveja, desde o campo até ao copo, realizou-se sábado a “Vindima Cervejeira”, na qual os participantes foram até Monsul, no concelho da Póvoa de Lanhoso, colher o lúpulo, depois fizeram a separação das flores na Praça de Santo António, no centro de Vila Verde, onde decorreu o festival, e finalmente adicionaram-nas a uma cerveja de edição limitada produzida de forma colaborativa, na sede da cervejeira.

Com esta iniciativa, a Cerveja Letra pretendeu dar a conhecer o passado agrícola da região, que nas décadas de 70 e 80 foi uma das maiores referências na produção de lúpulo em Portugal, convidando o público a participar ativamente no renascimento desta tradição. «Com este evento, queremos desafiar agricultores e pequenos empresários a avançarem para a produção de lúpulo e de outros cereais que se dão bem na nossa região e que podem ser utilizados na produção de cerveja», afirma Filipe Macieira, co-fundador da Letra.

Este responsável indica que o produtor da Póvoa de Lanhoso tem um projeto-piloto através do qual está a testar diferentes variedades de lúpulo, de forma a ver a sua capacidade de adaptação à região, com o objetivo de produzir para fornecer à indústria. A nível nacional, a produção mais significativa existe em Bragança, a que se junta um projeto em Santa Maria da Feira.

«A Vindima Cervejeira é uma atividade pedagógica e simbólica. Todo o lúpulo que colhemos nesta iniciativa dá para produzir pouco mais de 1500 litros de cerveja. Se tivermos em consideração que nós, por ano, temos capacidade para produzir 500 mil, conseguimos perceber que esta colheita é insuficiente», explica.

No passado, o distrito de Braga – sobretudo Vila Verde, Barcelos e Póvoa de Lanhoso – e Trás-os-Montes eram as regiões com produção de lúpulo. Em Vila Verde, há cerca de três décadas, os campos junto a rios e ribeiros tinham lúpulo, sendo que a última estrutura de suporte desta planta trepadeira foi deitada abaixo há cerca de dois anos para dar lugar à plantação de milho.

Para além disso, havia a Lupulex – Sociedade Portuguesa de Cultura do Lúpulo, cooperativa pela qual passava praticamente todo o lúpulo que se produzia em Portugal, uma vez que aqui era categorizada a qualidade do produto, que depois era vendido para diversos países europeus.

Filipe Macieira assegura que há mercado para o lúpulo e que a sua produção é uma atividade rentável, apesar do investimento inicial nas plantas – que podem durar mais de 20 anos –, nos postes de suporte – a planta pode crescer até sete metros de altura – e na maquinaria para a colheita. «Pagamos entre 30 e 50 euros por quilo de lúpulo. Estamos a falar de valores consideráveis, tendo em conta que temos cervejas nas quais podemos utilizar cerca de 20 quilos de lúpulo para mil litros de cerveja», revela.

Assim, o empresário refere que a Cerveja Letra está disponível para dar apoio técnico a quem se quiser iniciar nesta atividade, no sentido de indicar as variedades que deve plantar, e posteriormente comprar o produto.

O responsável sublinha que esta atuação se insere na estratégia de sustentabilidade pela qual a empresa se tem pautado desde a sua criação. «A Vindima Cervejeira também visa criarmos um sentido de comunidade, convidando o consumidor a descobrir o aspeto do lúpulo e a componente que ele traz à cerveja, que é o amargor e o aroma».

Mais de cem cervejas em prova

Integrado na "Rota das Colheitas”, promovida pelo Município de Vila Verde, o Harvest Fest deu a conhecer a produção de cerveja artesanal em Portugal, com a presença de 10 marcas nacionais, como a Fermentage (Lisboa), Brighops (Bragança) ou Pobeira (Póvoa de Varzim), num total de mais de 100 cervejas. «O objetivo é consolidar o sentido de comunidade que existe em torno da cerveja artesanal. Temos várias dinâmicas durante o festival, como música, harmonização com gastronomia, demonstrações culinárias ou um questionário cervejeiro. É um festival 360° à volta do lúpulo e da cerveja», resume.

Criada por Filipe Macieira e Francisco Pereira em 2013, então investigadores da Universidade do Minho, a Letra é atualmente uma das mais importantes marcas de cerveja artesanal em Portugal. Com cerca de 60 trabalhadores, a empresa tem a unidade de produção em Vila Verde e os bares Letraria em Vila Verde, Braga, Ponte de Lima, Viana do Castelo, Porto e Óbidos.