Portugal tem uma dependência crescente de adubos, tendo importado no ano passado 700 mil toneladas, que custaram 335 milhões de euros, mas desperdiça anualmente 25 milhões de euros em nutrientes e matéria orgânica.
O alerta é da associação ambientalista Zero, que refere dados de 2024 para dizer que perto de 1,8 milhões de toneladas de resíduos orgânicos ficaram por valorizar e mais de 1 milhão de toneladas de resíduos indiferenciados foram diretamente para aterro, sem pré-tratamento e sem cumprir a Diretiva Aterros.
Num comunicado, a associação alerta que o conflito no Médio Oriente evidenciou a dependência de Portugal de fertilizantes, e que estes estão com preços ao nível mais alto desde 2022.
Estima-se, diz a associação, que mais de um terço da ureia, fertilizante de alto teor de nitrogénio, passe pelo Estreito de Ormuz.
A sua produção é altamente dependente de energia e o preço ressente-se disso. Desde o início da guerra o preço da ureia subiu cerca de 80%.
A Zero nota que o aumento do preço dos fertilizantes já levou o Governo a atribuir um apoio extraordinário à atividade agrícola de 20 milhões de euros.
E destaca também que desde 2005 as importações de fertilizantes aumentaram mais de 40% em volume e mais de 260% em valor, ao mesmo tempo que milhares de toneladas de nutrientes e matéria orgânica acabam em aterro.
Nas contas feitas pela Zero, os macronutrientes recuperáveis dos biorresíduos — azoto, fósforo e potássio — valem cerca de 22 milhões de euros por ano, totalizando 25 milhões se somando o valor da matéria orgânica recuperável.
Os efluentes da suinicultura e da bovinicultura intensivas têm o potencial de satisfazer cerca de 50% das necessidades em azoto e fósforo das culturas agrícolas e florestais.
Para inverter a atual situação, a Zero defende a aposta na prevenção de biorresíduos, promovendo-se hábitos de consumo mais responsáveis.
E propõe que se imponham metas progressivas para a recolha seletiva porta-a-porta de resíduos orgânicos, mais exigentes no início para os grandes produtores de resíduos.
A Zero sugere também, entre outras medidas, que se permita aos municípios a reciclagem de resíduos orgânicos através de pequenas centrais de compostagem, criando composto para hortas comunitárias e terras agrícolas municipais.
Promover a compostagem comunitária e doméstica e promover um sistema que incentive a agricultura de proximidade, que permita o aproveitamento eficiente dos nutrientes de origem urbana, são outras propostas da associação.