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CESE apela a conversações de paz para acabar com conflito no Médio Oriente

Fotografia DR

Luísa Teresa Ribeiro

Chefe de Redação

Publicado em 23 de março de 2026, às 18:42

Sociedade civil organizada defende regresso à diplomacia.

O presidente do Comité Económico e Social Europeu (CESE) apela a conversações de paz no Médio Oriente para travar as consequências trágicas do conflito. «Enquanto voz da sociedade civil organizada, o CESE pede aos líderes de todo o mundo para voltarem à diplomacia e às conversações de paz», afirma Séamus Boland.

Este responsável falava no âmbito da Semana da Sociedade Civil, que reuniu cerca de 1000 participantes, em Bruxelas, sob o mote “Pessoas, Democracia, Resiliência – O Nosso Futuro”.

O líder desta instituição consultiva europeia considera «muito preocupante» que se tenha voltado à guerra após um período de «paz relativa». Os EUA e Israel levaram a cabo uma operação no Irão, a 28 de fevereiro, da qual resultou a morte do líder supremo do país, Ali Khamenei. Em retaliação, o Irão respondeu com mísseis e drones contra Israel, ataques a bases dos EUA e limitação da circulação no Estreito de Ormuz, levando a uma escalada do preço dos combustíveis. Esta é única passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, sendo por ali que transitam 20% das exportações globais de petróleo bruto.

Em seu entender, o que se está a passar «representa um grande falhanço para a diplomacia». «Como civilização, orgulhámo-nos dos avanços que a raça humana tem feito, dos avanços tecnológicos que nos permitem ter desde telefones móveis até técnicas de última geração para prevenir e tratar doenças. Então, porque é que não nos unimos para fazer com que a paz faça parte desse avanço civilizacional?», questiona.

Séamus Boland defende que a guerra deve terminar «agora e salvar milhares e milhares de vidas», para além de travar «a pobreza» que este conflito vai gerar. Para além das consequências nefastas do aumento imediato dos custos energéticos, que acarretam o aumento da pobreza, este responsável alerta para os efeitos da desestabilização do Médio Oeste, que pode levar a que não seja possível viajar para aquela parte do globo durante muito tempo. «Já sabemos quais são as consequências a curto prazo, mas as consequências a longo prazo são assustadoras», adverte.

«É por isso que nós, no CESE, apelamos aos líderes políticos, na Europa e em todo o mundo, para que ergam a voz e clamem pelo cessar-fogo imediato. Não deixem que esta guerra dure mais um dia», declara, deixando o repto: «Voltem à diplomacia».

Em relação à atuação da União Europeia, admite que «uma das grandes dificuldades para a Europa é ter uma visão comum aos 27 estados-membros». Assim, defende que os estados-membros devem trabalhar internamente a estratégia, antes de assumirem posições públicas.

Recorde-se que Espanha recusou formalmente que os EUA utilizassem as bases que têm no seu território para ataques contra o Irão. Donald Trump exigiu apoio dos aliados para garantir a reabertura e segurança do Estreito de Ormuz, mas a chefe da política externa da UE, Kaja Kallas, já veio dizer que os países europeus não têm vontade de expandir a missão naval no Médio Oriente ao Estreito de Ormuz.

Na perspetiva de Séamus Boland, «os líderes europeus precisam de insistir numa abordagem de lei e ordem baseada em regras», vincando que «há regras sobre invasões, sobre disputas e sobre a forma como estas se resolvem». A primeira – diz – é que haja conversações, mesmo isso implique «conversas sem fim».

«Há pessoas que estão a ser mortas, famílias que estão a ser dilaceradas. Há sangue que está a ser derramado. Podemos parar com isso e começar a falar? Falar pode ser frustrante, mas é o primeiro passo. Precisamos de dar esse passo», sustenta.

Olhando para a Europa, entende que a UE «vai ter que ser muito mais forte e muito mais independente». «Estamos a aprender rapidamente que se ficarmos dependentes de outros grandes poderes, seremos subservientes. E isso é muito, muito perigoso», argumenta.

Para este dirigente irlandês, «precisamos de falar sobre o que queremos dizer com defesa, quem defendemos, e mais importante, o que defendemos, que valores é que defendemos, porque os valores importam. Estamos a falar de justiça social, de igualdade e de liberdade, porque esses são os valores que a Europa representa».

«Há muitas razões pelas quais, às vezes, podemos estar descontentes com a União Europeia. Contudo, vou sempre defender a União Europeia quando comparada com qualquer outro sistema no mundo, porque, através dela, conseguimos proteger os humanos e sociais, devidamente inscritos no ordenamento legal. É perfeita? Claro que não, mas olhando ao nosso redor, não vemos ninguém a fazer melhor», sustenta.

 

Luta contra a pobreza tem de ser prioritária

O presidente do Comité Económico e Social Europeu (CESE), Séamus Boland, defende que a luta pela erradicação da pobreza tem de ser prioritária. «Antigamente, tínhamos estrelas da música e de outros quadrantes sociais a falar sobre a erradicação da pobreza. É preciso recomeçar essa luta», afirma.

O responsável pelo órgão representativo da sociedade civil organizada alerta que «pobreza significa desigualdade». «Quando alguém está em pobreza extrema só se preocupa se vai ter o que comer nas próximas horas. Agora mesmo, há uma mãe, há um pai, que só se preocupa com a sobrevivência nas próximas horas. É a isso que a pobreza nos reduz», diz.

No sentido de pôr esta questão na ordem do dia, o CESE vai falar com várias instituições e visitar os países candidatos à adesão à União Europeia. «Espero falar com o Banco Mundial sobre a mudança da narrativa em torno da pobreza e da erradicação da pobreza», revelou, numa iniciativa que merece o aplauso da vice-presidente do CESE para a Comunicação, a sindicalista croata Marija Hanževački.

A erradicação da pobreza é uma das questões centrais do mandato de Séamus Boland à frente do CESE, que tem como lema «colocar a sociedade civil no coração da Europa». O primeiro pilar do seu programa é «uma União de Oportunidades», centrado precisamente na erradicação da pobreza. «Sei porque estou aqui: porque as pessoas pobres, marginalizadas e vulneráveis precisam de uma voz forte. Prometo ser essa voz», declarou o agricultor e representante da organização de desenvolvimento rural e comunitário irlandesa Irish Rural Link, na cerimónia inaugural do mandato como presidente do CESE, que decorreu a 23 de outubro do ano passado.

Criado em 1957, o CESE é composto por 329 representantes de organizações de empregadores (Grupo I), de trabalhadores (Grupo II) e da sociedade civil (Grupo III) dos 27 estados-membros, estando Portugal representado neste organismo por 12 membros.

 

*Em Bruxelas, a convite do CESE.