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O “neto” do Serino

 

 



 

Indo eu em passo de tartaruga a contemplar os canteiros de belas flores do sempre magnífico Jardim de Santa Bárbara, da nossa bimilenária Brácara Augusta, quando eis que dou de caras com o Zé Serino. Um rapaz da minha proveta idade que não via há uns anos, companheiro de um quarteto de mancebos que viajavam no carro dele (dividindo o custo da “gasosa”) para irmos assistir aos jogos fora de casa do clube Arsenalista quando o SC Braga militava, na época de 74/75, na 2.ª divisão nacional. Partidas em cujas vedetas da correria eram, creio eu, o Calu e o Generoso

Pois bem, não é o futebol que pretendo abordar na minha crónica de hoje, mas o assunto do meu encontro com o Serino que me relatou breves trechos da sua vida. Fiquei a saber que, tal como eu, é casado com a mulher de sempre e reformado. Tendo-se ficado, apenas, por um casal de filhos devido a problemas ginecológicos que incapacitam a esposa de voltar a alcançar. Daí, ter depositado toda a esperança de que os dois filhotes lhe iram dar alguns netinhos. Só que a rapariga, a caminho dos 50 anos de idade e obcecada pelo trabalho, não quis ter filhos. Já o rapaz, com quase 40 casou tarde e, em vez de os ter, optou por adotar um cão. E, agora, a sua nora já se acha velha para engravidar, o que o traz os sogros inconsoláveis.

Com efeito, lá foi desabafando as suas mágoas dizendo-me que o filho e ela só têm olhos e tempo para o cachorro. Que tem direito a quarto e cama própria, banheira, brinquedos, etc. Tratam-no melhor do que são tratados, por aí, muitos humanos. Pois um dia destes, precisaram de se ausentar e ao ele perguntar-lhes onde é que deixaram o bicho, a resposta foi perentória: “no hotel canino”. O que deixou o velho Serino, algo escandalizado. 

Mas não só. Confessou-me, com algum pudor, que o cãozinho quando entrou em casa pela primeira vez logo começou a ser domesticado, como quem cria e cuida de uma criança. Desta feita, com muita paciência, ensinamentos e carinho, como se de uma pessoa se trate. Uma vez que afagos e beijos não lhe têm faltado até aos dias de hoje e andar por cima dos sofás novos e pela cama dos cônjuges, não é problema. Já os pelos que larga e os dejetos são prontamente recolhidos, sem qualquer ralhete ou admoestação. Isto, para além de lhe comprarem os melhores enlatados e granulados alimentares a uma pipa de massa, acrescida de 23% de IVA.

Os desabafos continuaram dizendo-me ele que o Tony, assim se chama o substituto do “neto” do Serino, possui seguro de saúde e é tratado nas melhores clínicas veterinárias onde gastam rios de euros, a fim de lhe curarem as maleitas. De vez em quando, levam-no à praia para correr e saltar no areal, aliviando-lhe o stress. Também festejam o seu aniversário com um bolo, acendem velinhas e cantam-lhe os parabéns. Andam à volta dele como patetas, pulam, riem e saltam. Enfim, tudo fazem para caírem nas boas graças do animal. O que o nosso ancião acha um exagero. 

O Serino e a mulher estão desolados. É que tanto o filho como a nora, filha única, passam tempos infinitos sem uma visita a casa dos progenitores. Pois, segundo referiu, houve uma altura em que lhe surgiu um problema de saúde e ligou aos dois para ver se algum o levava ao Hospital da Cidade dos Arcebispos. A resposta chegou seca: – “chame um táxi, ou 112”. Mas o que também muito magoa o meu antigo parceiro das tardes futebolísticas de domingo, é o facto de que o pouco que venha a deixar aos filhos, ao não procriarem, vá parar a mãos de parentes que nunca viram ou, até, de desconhecidos.

Terminada a prosa, despedi-me do Zé Serino e logo disse para comigo: lá vai mais um que não se encaixa na pancada animal, em que os seres irracionais pesam mais do que os familiares racionais.. Em que a par da falta de natalidade lusa, prolifera a onda dos “therians”, como novo modelo civilizacional. Para isso, os seus ativistas não só se travestem de animais, como se colocam de pés e mãos no chão, pulam, dão ao rabo e, se suínos, grunhem. 



 

 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

15 junho 2026